sábado, 14 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Mistério...

Embrenhado na maior das melancolias, saiu de casa sem um rumo, sem um trajecto, sem um destino, como era aliás normal. Não saberia responder se lhe perguntassem por que ruas passara, por que edifícios, por que monumentos. O que via em cada passeio eram caras e essas nunca eram iguais. Era esse o seu objectivo, ver rostos, analisar faces, procurar em algum semblante desconhecido uma tristeza, um torpor agonizante, uma depressão vertigionosa maior que a sua, porque ao contrário do que o povo diz, quem vê caras vê corações, os músculos faciais não são mais que o prolongamento do miocárdio.
Mas afinal, foram poucos os transeuntes que por ele passaram. Pouco mais que um quarteirão, talvez seja o vento que se faz sentir que recolha as pessoas em casa, que as faça sofrer a vida em paz e sossego, lamentando as suas amarguras de robe vestido ou com uma manta por cima dos ombros, aquecendo as mãos numa fogueira crepitante. Das que viu, apenas uma mulher de bigode aparentava estar verdadeiramente triste, não se sabe se era pelo seu ar cansado ou pelo andar arrastado ou pela pequena gota que se formara no canto do olho direito.
Deu por si já muito longe de casa, uns bons cinco quilómetros, já a tarde adquiria os tons mais fúnebres e o sol dava as últimas, reduzindo-se a uma indistinta mancha alaranjada no horizonte. Olhou em redor e apercebeu-se que estava perdido. Estava numa rua pequena, de casas abastadas de fronte para um pequeno jardim público. Os candeeiros acendiam-se devagar, e do jardim, curiosamente denso para o centro da cidade, ouviam-se risos e gritos de crianças. O que dispensava naquele momento era assistir a um espetáculo de alegria humana, de felicidade gratuita, um acto de provocação perante os adeptos da tristeza, os seguidores da melancolia, os resignados com os infortúnios da vida funesta. Mas, como marioneta guiada por cordas desconhecidas, entrou pelo jardim dentro, desta vez com destino marcado, um grande clarão ruidoso que habitava o centro do parque. Sem trocar o seu passo triste e sonolento, explorou os caminhos sinuosos do jardim, qual Ícaro vidrado pelo sol. No entanto, as asas deste não derreteram, chegou ao seu destino salvo, porque são não estava nem ficou. O clarão barulhento não era mais que um pequeno carrossel, quase vazio, onde duas crianças trocavam de lugares num ápice, para fúria de uma idosa que gritava do lado de fora para parar tudo, antes que as crianças mudassem rapidamente da girafa para o elefante e depois, quem sabe, aventurar-se no condor. Ao ver aquele triste espetáculo, o nosso pobre personagem deu meia volta e retomou à escuridão do parque. Lembrou-se da sua infância e reflectiu sobre a sua condição. Depressa abrandou o passo e refugiou-se debaixo da copa de uma árvore pequena. De cócoras, pior posição para se ser dramático não há, limpou as lágrimas que se acumularam nas covas dos olhos e murmurou muito baixo, de maneira quase inaudível:
- Perdemos a infância e perdemos quase tudo. Só se ganham rugas e o maior mal dos nossos povos, o sentido de impossibilidade. Apenas na infância podemos cavalgar tanto um leão como uma abelha...
E posto fim a esta declamação para o silêncio, levantou-se firmemente e tirou o cinto das calças. Os ramos da arvore eram suficientemente altos e fortes.

No dia seguinte, um corpo de um enforcado era retirado do jardim, para gigantesco espanto de todos. As questões eram as mesmas em todas as bocas: Porquê, porquê, porquê? E a resposta diziam-na os velhos, com a sabedoria de uma vida amargurada:
- Mistério, pertubador mistério...

(a Mário de Sá-Carneiro, as minhas sinceras desculpas por ter arruinado uma ideia sua)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Enterro

O caixão veio da morgue do hospital até à casa mortuária da igreja sozinho, apenas guiado pelo condutor do carro funerário que, por exigência da profissão, se apresentava de fato e gravata preta. Uma indumentária adequada para a ocasião, ainda que ignorasse quem seguia dentro da caixa de pinho que transportava.
O funeral tinha sido encomendado por uma voluntária do hospital, que acompanhara os últimos dias do cadáver. Infelizmente, ela não poderia estar presente na cerimónia, tinha coisas que fazer. E nós compreendemos, assistir ao enterrar de um caixão não é algo com que percamos o valioso tempo da nossa vida. O que é certo é que o caixão chegou, foi colocado pelo condutor do carro e pelo sacristão da igreja dentro da casa mortuária, foi aberto e assim ficou toda uma manhã. Tendo em conta que a igreja fica numa rua relativamente movimentada, é estranho o facto de ninguém ter tido a curiosidade de ver quem tinha morrido. O que não falta são transeuntes que, vagueando sem rumo pela melancolia das ruas escuras da cidade, viram à esquerda ou à direita consoante o interesse daquilo que lhes salta à vista. Mas não, nem dessas pobres criaturas este cadáver teve visitas. Durante quatro horas, apenas o sacristão e o motorista acompanharam aquele corpo que, ali deitado, olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito, esperava não se sabe bem o quê.
O silêncio que entre os dois homens se instalou logo após a abertura do caixão, tornou-se incómodo cerca de uma hora e meia depois. A conversa começou com o estado do tempo, estava muito frio embora não chovesse há mais de uma semana. Depois falaram dos desassossegos da profissão, quando o morto é obeso, quando os familiares não deixam que a urna se feche, quando o caixão é colocado quase ao pontapé para dentro do buraco. Já os dois falavam do treinador do Benfica e da arbitragem no último jogo do Sporting quando surgiu a primeira pessoa.
O homem, baixo, gordinho e calvo, entrou na casa mortuária bem devagar. Chocou por trazer uma camisola verde-alface, mas quem eram o sacristão e o motorista para o julgar, cada um celebra o luto como quer. Sem dizer uma palavra, chegou-se perto do caixão, olhou o morto, e deu alguns passos atrás. Puxou de uma cadeira, sentou-se e levou as mãos à cabeça.
A conversa sobre o futebol não continuou, de novo o silêncio voltou a sentar-se no trono, de onde não deveria ter saído nunca, dadas as circunstâncias. Só foi interrompido pelo motorista, a avisar que ia almoçar uma sandes que tinha trazido e que viria logo para que o sacristão também se pudesse alimentar. Depois de devorar que nem um animal a sandes de pasta de atum e ovo, voltou para a casa mortuária. Já lá estavam mais três pessoas.
Entre o regresso do motorista e a chegada do padre à casa mortuária, o movimento de gente era tão grande que o sacristão, espantado com tamanha lufa lufa que ali se passava, confessou que nunca vira tanta gente naquela salinha pequena. O costume é chegar, dar os pêsames, chorar, se a pessoa for mais próxima e ir embora. Neste caso, quem chegava não dava pêsames, alguns choravam mas ninguém ia embora. Pela altura de fechar o caixão e levá-lo para ser enterrado, a casa mortuária estava a abarrotar, já todos choravam: crianças, jovens, adultos, velhos, vestidos de preto, branco, azul, verde, encarnado. Agarravam-se uns aos outros, choravam em conjunto, e de tão embebidos na dor, ninguém olhou uma última vez para o rosto do morto antes de o caixão se fechar para sempre.
Quando tentaram levar o caixão para o cemitério, o motorista e o sacristão, munidos de um carrinho para levar a urna, deparam-se com uma multidão lacrimejante frente à casa mortuária. Gritos sinceros de dor ecoavam pelo ar gelado, centenas de lenços limpavam a mágoa e assoavam a tristeza. Era de longe o maior e mais penoso funeral que aquele padre já tinha testemunhado, e ele já contava com 47 anos de ordem. Para assistir ao enterro, as centenas de pessoas perdiam-se no labirinto de campas velhas e novas do cemitério. Levavam as mãos ao céu, abraçavam-se, puxavam os cabelos de tanto sofrimento. O caixão entrou sem problemas no seu respectivo buraco, e quando foi depositada a primeira pá de terra, a multidão enxugou as lágrimas e ordeiramente saiu do cemitério.
Soube-se depois que o morto, (homem ou mulher, novo ou velho, nunca saberemos) vivia só, não tinha nenhum membro da família vivo e não tinha amigos, só conhecidos a quem dirigia um cru e insosso "bom dia". Então, como explicar este enterro monumental, incrustado de dor e angústia?
Não foi pelo morto, garanto-vos eu. Não foi pelo morto que todas aquelas lágrimas foram derramadas, não foi pelo morto que todos aqueles gritos foram soltos, não foi pelo morto que aquela gente esperou horas ao frio para que o caixão fosse enterrado. A verdadeira razão de todo este drama, de toda esta paixão, foi o fim da quimera, o desaparecer do ilusão, a tomada de consciência do Homem de que a morte existe mesmo e atinge-nos a todos. E naquela tarde não se enterrou só um cadáver, mas também o engano da humanidade de que a vida dura para sempre.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ensaio Sobre a Solidão

Estamos na altura do ano em que a tarde e a noite passam o testemunho uma à outra a horas que toda a gente acha escandalosas, desassete horas e a tarde arruma as suas tralhas e lá vai à sua vida, deixando a noite fazer-lhe o turno até perto das seis, altura em que a manhã lá aparece. Partimos desta análise das horas de sol para explicar ao estimado leitor o porquê do senhor Adolfo, que é este o nome da personagem de hoje, ainda estar a acabar de fazer as suas contas e já o céu está negro e a lua há muito que por lá reina. Não o tomemos por trabalhador massacrado de uma empresa de contabilidade, que isso é coisa que o senhor Adolfo não é. De facto, deve ser das primeiras pessoas a sair da empresa, quase todo o escritório ainda está embrenhado nas suas contas e ele já está a vestir o casaco para ir para casa. Ainda assim, o senhor Adolfo não o faz prepositadamente, é este o seu horário e ele nada mais faz que cumpri-lo. Não deixou trabalho por fazer, é até considerado um funcionário exemplar, o chefe tem sempre umas palavras simpáticas para com ele. É pena ser o único, para os outros colegas, não é inimigo, mas não passa de mais um engravatado que passa os dias agarrado a uma máquina de calcular e que come a sua sandes de lombo à secretária quando o rugido do estômago se torna mais incómodo. Além disso, o senhor Adolfo é ingénuo, acha que o silêncio dos outros é apenas uma demonstração do seu empenho, e quando sai do escritório, sorri para todos e ninguém lhe responde sem ser a estagiária gordinha que está lá para agradar a toda a gente.
O senhor Adolfo já vai a caminho de casa, vive num belo apartamento não muito longe do escritório, mas faz questão de exibir o seu automóvel, um fenomenal símbolo de prestígio e riqueza. Já chegou a casa, já pôs o carro na garagem, não quer mais nada sem ser um revigorante duche de água quente e sentar-se no sofá, com a mulher nos braços, a ver daqueles filmes de domingo à tarde. Mete a chave na fechadura com essa mesma intenção, mas em breve saberemos que não vai tomar duche nenhum, pelo menos não quando o espera tomar.
A casa está mergulhada na penumbra, a esposa do senhor Adolfo deve por lá andar a fazer coisas de dona de casa. Mas Adolfo não é daqueles de chegar a casa e gritar "Oh Maria" e não sei que mais, não, gosta de surpreender, é desses pequenos gestos que se faz o amor e o casamento. Apenas a luz do quarto estava acesa, mais nenhuma, a porta estava encostada e deixava passar um tracinho de luz que iluminava a mesma porção da parede. Pé ante pé, Adolfo, que já se descalçou quando entrou em casa, abre-a devagarinho, felizmente não é daquelas que grunhem. E o que encontra? Encontra a mulher, agarrada a outro que não ele, nus, a gemer e a gemer (o sexo vai sendo comum por estas chuvas), um apalpanço, o beijo, uma lambidela, coisas comuns entre amantes mas não entre casais, pelo menos presumimos isso pela cara do senhor Adolfo. Está ali, espantado, estarrecido, não diz nada, não faz nada, e aqueles dois continuam naquela vida como se não houvesse amanhã. O senhor Adolfo nem quer acreditar, vai para a casa de banho, puxa as calças para a baixo e senta-se na sanita, mesmo que não tenha grande vontade de cagar, desculpe-me o leitor o termo. Está ali para reflectir, qual Pensador de Rodin.
Vou matá-la, pensa ele, vou matá-la. E a ele, a ele também. Aos dois. Comprámos o faqueiro novo, deve ter uns belos utensílios, vamos fazer isto à moda antiga, tudo com as tripas de fora e tudo cheio de sangue, assim é que deve ser.
Quem conseguisse ler-lhe os pensamentos, diria, "Quem é este, o senhor Adolfo não é de certeza, aquele paz de alma contabilista não ia chafurdar os lençóis com estes pensamentos doentios, e matar a mulher, eles que se amam tanto. Nem pensar, não, o senhor Adolfo não é de certeza."
E não fogem muito à verdade se o pensarem assim. O senhor Adolfo não se vai armar agora em talhante, nem vai matar ninguém. De facto, vai só limpar o rabo, que nem sujo está, vestir as calças, arejar um pouco, deixar que o estranho que lhe habita a cama se vá embora e depois entrar em casa como se nada fosse, "atrasei-me um pouco no trabalho, estás tão linda hoje, vamos ver o Nothing Hill". E porquê? Como é capaz de aguentar assim uma traição, perdoando com um ânimo tão leve? A resposta é simples. Sem a mulher para o esperar quando chega a casa, o senhor Adolfo ficaria só. E a solidão caro leitor, é a coisa mais triste que há na vida.

(com a ajuda de Deus e do Zé)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A Vida É Uma Morte Continuada

-Estou a morrer, disse o homem sentado na cama, encharcado em suor. A mulher acordou com a agitação na cama, olhou para o relógio e virou-se para o homem.
-O quê?, perguntou-lhe com os olhos fechados.
-Estou a morrer, já te disse, respondeu-lhe ele.
-São quatro da manhã, páras de dizer baboseiras?
-Mas não é nenhuma baboseira, disse-lhe ofegante, estou mesmo a morrer.
-Se pensas que me levas a ter sexo com essas conversas, estás muito enganado. Importas-te de desligar a luz e voltar a dormir?
-Será que não percebes? Estou a morrer, no seu sentido mais verdadeiro, mais puro e literal, estou a morrer, a falecer, a bater as botas.
A mulher acendeu o seu candeeiro e sentou-se ao lado do homem que contemplava o infinito à sua frente de olhos esbugalhados.
-Tiveste algum pesadelo?
-Não, nem nenhum sonho, tenho a impressão de nunca ter estado a dormir.
-Mas eu bem te ouvi a ressonar.
-O que interessa é que cheguei à conclusão que estou a morrer.
-Deves estar com febre, estás completamente maluco.
-Não, não, não, disse o homem virando-se pela primeira vez para a mulher, parece-me a mim que estou mais lúcido que nunca.
-Não é sinónimo de lucidez acordar a meio da noite e dizer-se que se está a morrer, sabendo tu muito bem o resultado das análises da semana passada e que diziam que estava tudo bem.
-Não são as análises que me dizem isso, nem é preciso que nenhum médico ou especialista me venha dizer que estou a morrer, esse deveria ser um dado adquirido para o mundo inteiro.
-Estás a dizer-me que estou a morrer, eu também?
-Claro, não és mais que qualquer um.
-Que eu saiba, não tenho qualquer cancro ou doença que me esteja a matar.
-Mas estás a morrer.
-Ainda não sei porque me estou a dar ao trabalho de falar contigo.
-Escuta-me, a cada dia que passa, morres. Tu e qualquer outro ser que por cá habite. A partir do momento em que é gerado, o ser humano inicia uma contagem decrescente para o dia da sua morte. O Homem não vive, se é que me compreendes, o homem morre, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo, ganha uma ruga, dá um passo em frente para o abismo, caminha para os braços da morte, sempre prontos a acolher-nos.
-Cala-te, nada disso está a fazer sentido, estás a assustar-me.
-Mas não tens que te assustar, a morte é a coisa mais natural da vida, a sua existência é tão óbvia como o fogo ser quente, como a pedra ser dura, como a chuva ser molhada. Cheguei a esta conclusão, o homem não vive. O homem morre.
A mulher massajou as pálpebras, deixou-se ficar de olhos fechados a saborear o silêncio e disse.
-É sexo que queres?
O homem, já mais calmo, olhou-a e respondeu-lhe.
-Se a vida é uma via sacra tão efémera, para quê gastá-la a dormir?
E lá foram os dois, numa viagem pelas colchas e pelos lençóis, que em Novembro as noites são frias, a praticar um dos actos mais primitivos da natureza humana, estavam provavelmente a gerar vida para enganar a morte. Se gostaram ou não, não o saberemos. Pelo menos ela bem gemeu, mas diz o povo que a mulher é grande actriz nestas artes do sexo.

Dois dias depois, outro homem se levantou da cama pelas três da manhã e disse, como quem declarava uma verdade inquestionável:
-Estou a morrer.
Desta vez não havia ninguém ao seu lado. Voltou a deitar-se e adormeceu.

sábado, 15 de novembro de 2008

A Culpa da Bezerra

Hoje dei por mim a pensar em tudo e a pensar em nada, ou como o povo diz, a pensar na morte da bezerra, morte essa que deve ter sido algo de extraordinário para que toda a gente que esteja entregue aos seus próprios pensamentos esteja obrigatoriamente a pensar na pobre bezerra a morrer. Se foi assassinada, se foi doença, se foi velhice, se foi suícidio, pelo menos eu nunca saberei e duvido muito que algum dos leitores chegue a uma conclusão. O que posso afirmar com certeza é que esta visão de uma bezerra a bater as botas, a esticar o pernil, a ir para os anjinhos ou simplesmente morrer surge cada vez mais frequeentemente nos meus pensamentos, como se eu já não tivesse problemas que chegassem. A verdade é que não é o ser poeta que é uma infeliz característica do ser, mas sim pensar. Exacto, pensar, não comece o leitor já a insultar a minha pessoa e a perguntar-se o que está a fazer, a perder tempo, a ler deste tipo de barbaridades. De facto, uma das nossas capacidades mais desenvolvidas, que nos torna diferentes de todos os outros animais, foi a pior coisa que nos pode acontecer. Se fossemos todos metódicos, se fossemos todos escravos das ordens de um infeliz que pensou, se fossemos todos máquinas ignorantes e burras, éramos muito mais felizes. Bom homem era Salazar, que sabia que ao não apostar na educação e a manter a população analfabeta, iria tornar a ditosa pátria num Portugal mais feliz, pois não era ensinado a pensar. Mesmo assim, houve aqueles que gritaram "não há machado que corte a raiz ao pensamento", e com as suas falinhas mansas, acabaram por mostrar ao povo que pensar livremente era bom, tornando assim o ditador numa criatura incompreendida até hoje.
Tomemos hoje isto como uma verdade absoluta e inquestionável: pensar é mau, não nos faz bem nenhum. E porquê? Simplesmente porque pensar dói. Raciocinar demais provoca stress, vai buscar à memória, outra coisa que de bom não tem nada, os episódios mais infelizes da vida. Pensar, além de nos recordar o quão efémera é a nossa passagem pelo mundo dos vivos, é responsável por repensar o passado e tentar prever o futuro. E esse futuro, o que nos guarda? No meu caso, cheguei à conclusão que traz miséria, solidão e lágrimas. E se o leitor pensar um pouco, vai ver que o futuro não lhe vai ser diferente.
Cheguei então ao fim do dia com uma dor de cabeça abominável e um mau-estar digno do fim dos tempos. Mas que bezerra é esta que não lhe basta já ter morrido, ainda tem que provocar dor aos outros?

sábado, 20 de setembro de 2008

Bellevue ou O Monólogo do Assassino Sentimental (II)

Como sabem, não me considero o senhor da justiça e da moral. Mato por necessidade. Não “necessidade” no sentido do predador que mata porque precise de se alimentar mas “Necessidade” de me sentir completo. Pensando bem, talvez seja como o Amor, aquela necessidade tão nojenta e tão poética que a humanidade tem de encontrar um alguém que nos ache encantadores. Sim, talvez seja Amor. O desejo extremo, o idolatrar do som, do cheiro, da visão da Morte. Sentir a Vida a abandonar mais um corpo, a subir-me pelas mãos, a trepar lentamente pelos braços, eriçando todos os pelos pelo caminho, e a ir preencher mais um cantinho negro no pedaço de carvão que trago alojado no peito. Sim, sinto-me mais completo de cada vez que mato. Mas a plenitude que sinto pouco dura, rapidamente se esvai. Esgota-se a cada respirar, a cada piscar de olhos. E nessa altura, o meu corpo impele-me a matar.
Não penso em mais nada, não sinto mais nada, não quero saber de mais nada. Vou ao meu “livro de receitas”, o pequeno manual de capa de couro velho onde tenho guardado todas as vítimas e todas as formas de que já matei. Escolho uma receita, preparo os ingredientes (umas gramas de mistério, tantas outras de acção, uma pequena pitada de terror e violência q.b.) e limpo os utensílios e mais importante, preparo-me a mim, preparo o Orquestrador de tudo isto. De vez em quando, quando o sentimento de nostalgia lá aflora à pele, gosto de o ler e reler. De analisar as maneiras ingénuas e trapalhonas da adolescência, de rever o profundo semblante da Morte. Não faço por esconder os cadáveres das vítimas. Não sou médico legista, não é esse o meu trabalho. O meu trabalho é dar-lhes trabalho. Aos médicos, aos polícias…
Nunca fui apanhado, nunca fui questionado, nunca fui sequer mandado para pela polícia por excesso de velocidade. Quem me dera que me parassem e é claro que não vou ser eu a tentar parar-me a mim próprio. Não sou assim estúpido a esse ponto…
Mas olhem para o relógio… Queria tanto contar-vos mais coisas, dos que me marcaram mais, dos que me deram mais gozo… Mas o tempo voa e parece já ser tempo outra vez. Tempo de quê? De matar, ora.
[Z]

Como eu esperava, foram incontáveis os textos que me vieram parar às mãos. Incontáveis para quem não sabe contar até dois, mas ainda assim, foram dois textos bons. O escolhido foi o do Zé, que não se aproxima em nada da minha segunda parte, e ainda bem. Obrigado.
apetecememorrer.blogspot.com