A cidade já começava a ser batida pela luz da manhã outonal, melancólica e desprovida de fé, quando Ele acendeu o cigarro. Percorrendo com os olhos o panorama de tectos de prédios sujos e de antenas de TV ferrujentas, ia puxando a nicotina e o alcatrão e todas as porcarias que provocam cancro do pulmão e enfisemas e impotência, esquecendo-se das coisas boas, tornando aquele cigarro um dos mais desagradáveis dos seus 33 anos de existência. A idade era uma das duas coisas que tinha em comum com Cristo. A outra era a sua infinita compreensão pelas mulheres da vida, prostitutas, rameiras; não estando com meias palavras, putas. Tinha por elas a maior admiração e respeito, sendo ele um cliente assíduo dos seus serviços.
Desviou o olhar da paisagem funérea para contemplar uma dessas mulheres. Deitada na cama, os cabelos longos, mil corvos espalhados pelos lençóis, que lhe cobriam as pernas, deixando o tronco destapado, atentando as résteas de pudor que ainda haviam naquele quarto.
Meia dúzia de horas antes, via-a em toda a sua fulgência à espera no passeio, trapos mínusculos e provocantes salientando-lhe as curvas, as pernas nuas e compridas, os lábios garridos, o rosto reluzente, o expoente da sensualidade, o sexo em forma de gente, o produto final de um trabalho divino, destinado a satisfazer os prazeres da carne humanos.
Mas isto foi há seis horas atrás. Agora, depois do acto propriamente dito, depois de coberta de suor e esperma e pecado, tinha outro corpo. Ele olhou-a atentamente e não viu mais a "Vanessa, 30 anos, boas curvas", que tinha encontrado nos classificados. Viu apenas a Regina ou a Zulmira ou a Brunilde, pois Vanessa devia ser só o nome de profissão, de enormes cabelos oleosos, o rosto coberto de profundas rugas e cicatrizes, os lábios gretados pintados de um vermelho berrante, os seios excessivamete grandes, gordos, a pequena barriga que não notara antes, as mãos velhas e gastas, com unhas mal pintadas de um tom de castanho indestinto. Conseguiu identificar todos estes defeitos apenas da cintura para cima. Imaginem os leitores o que pensaria ele da cintura para baixo, provavelmente a zona do corpo mais usada pela Vanessa, que passava de um objecto de perdição a uma materialização do horrível, uma personificação do repugnante, um corpo que concentrava todo o nojo e todo o ódio presentes no Homem.
Desviou o olhar do terrível espétaculo que se apresentava deitado na cama, na sua cama, e voltou a contemplar a cidade a amanhecer em tons de laranja e castanho, enquanto acabava o penoso cigarro.
Ela, como que acordada pelo seu silêncioso mas profundo olhar, viu-o nu, fumando, olhando para o vazio que a janela proporcionava.
"O que estás a fazer?"
Ele apenas rodou a cabeça para a olhar de soslaio e voltou-se de novo para a janela.
"Anda para a cama, está-me a apetecer mais", repetiu.
De facto, não era a primeira que tinha gostado de fazer o seu trabalho com Ele. Todas gostavam muito e pediam sempre mais pela manhã.
Ele olhou de novo para ela e ela tratou de destapar o resto do corpo. A visão que ele teve, que ainda há poucas horas era de um paraíso anunciado, tornou-se putrefacta demais para uma descrição literária.
Em vez de lhe dirigir alguma palavra, saiu do quarto a passos largos, tentando desviar os olhos dela, deixando-a semi-erguida na cama, perplexa, até ao seu regresso, ainda nu, mas com as mãos atrás das costas, como se escondesse algo.
Ele, de olhar pesado e rosto sisudo, perguntou-lhe:
"Amas-me?"
E a Vanessa, temendo que uma resposta negativa lhe negasse mais movimentos pélvicos até ao próximo cliente, respondeu:
"Sim"
Ele deixou cair os braços de desalento, podendo agora ver-se o que escondia atrás das costas, uma pequena faca de cozinha.
"Ah, fodasse"
Dito isto, atirou-se para a cama e estripou-a violentamente, por entre gritos estridentes, fácilmente confundidos com orgasmos de mulheres mais sensíveis.
Acabado o trabalho, a cama estava agora coberta de sangue e vísceras, e sem sinais do corpo moribundo de Vanessa.
Afinal, quem foi que disse que o Amor dava tesão?
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Pedro, lembrando
Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, pedaço de carne, o único que me levou à estúpida manifestação de tristeza através dos olhos, que me levou a saborear o insípido sabor das lágrimas. Manhã das minhas noites, som dos meus silêncios, morte das minhas vãs esperanças de felicidade. Foste sal e foste açucar, tanto foste orgasmo de dor como de alegria. Nunca foste capaz de atribuir um nome ao que te nutria, fosse ódio ou amor...não, amor é muito pouco, dizias. E agora abandonas-me na ignorância sentimental da melhor ou da pior coisa que me aconteceu na vida: tu.
E agora, mais uma vez, o que resta são as memórias. Elas que me valham, porque só assim me consigo lembrar que és a maior certeza de que gosto de ti, até ao fim do mundo que me deste. *
(yac)
E agora, mais uma vez, o que resta são as memórias. Elas que me valham, porque só assim me consigo lembrar que és a maior certeza de que gosto de ti, até ao fim do mundo que me deste. *
(yac)
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