Estamos na altura do ano em que a tarde e a noite passam o testemunho uma à outra a horas que toda a gente acha escandalosas, desassete horas e a tarde arruma as suas tralhas e lá vai à sua vida, deixando a noite fazer-lhe o turno até perto das seis, altura em que a manhã lá aparece. Partimos desta análise das horas de sol para explicar ao estimado leitor o porquê do senhor Adolfo, que é este o nome da personagem de hoje, ainda estar a acabar de fazer as suas contas e já o céu está negro e a lua há muito que por lá reina. Não o tomemos por trabalhador massacrado de uma empresa de contabilidade, que isso é coisa que o senhor Adolfo não é. De facto, deve ser das primeiras pessoas a sair da empresa, quase todo o escritório ainda está embrenhado nas suas contas e ele já está a vestir o casaco para ir para casa. Ainda assim, o senhor Adolfo não o faz prepositadamente, é este o seu horário e ele nada mais faz que cumpri-lo. Não deixou trabalho por fazer, é até considerado um funcionário exemplar, o chefe tem sempre umas palavras simpáticas para com ele. É pena ser o único, para os outros colegas, não é inimigo, mas não passa de mais um engravatado que passa os dias agarrado a uma máquina de calcular e que come a sua sandes de lombo à secretária quando o rugido do estômago se torna mais incómodo. Além disso, o senhor Adolfo é ingénuo, acha que o silêncio dos outros é apenas uma demonstração do seu empenho, e quando sai do escritório, sorri para todos e ninguém lhe responde sem ser a estagiária gordinha que está lá para agradar a toda a gente.
O senhor Adolfo já vai a caminho de casa, vive num belo apartamento não muito longe do escritório, mas faz questão de exibir o seu automóvel, um fenomenal símbolo de prestígio e riqueza. Já chegou a casa, já pôs o carro na garagem, não quer mais nada sem ser um revigorante duche de água quente e sentar-se no sofá, com a mulher nos braços, a ver daqueles filmes de domingo à tarde. Mete a chave na fechadura com essa mesma intenção, mas em breve saberemos que não vai tomar duche nenhum, pelo menos não quando o espera tomar.
A casa está mergulhada na penumbra, a esposa do senhor Adolfo deve por lá andar a fazer coisas de dona de casa. Mas Adolfo não é daqueles de chegar a casa e gritar "Oh Maria" e não sei que mais, não, gosta de surpreender, é desses pequenos gestos que se faz o amor e o casamento. Apenas a luz do quarto estava acesa, mais nenhuma, a porta estava encostada e deixava passar um tracinho de luz que iluminava a mesma porção da parede. Pé ante pé, Adolfo, que já se descalçou quando entrou em casa, abre-a devagarinho, felizmente não é daquelas que grunhem. E o que encontra? Encontra a mulher, agarrada a outro que não ele, nus, a gemer e a gemer (o sexo vai sendo comum por estas chuvas), um apalpanço, o beijo, uma lambidela, coisas comuns entre amantes mas não entre casais, pelo menos presumimos isso pela cara do senhor Adolfo. Está ali, espantado, estarrecido, não diz nada, não faz nada, e aqueles dois continuam naquela vida como se não houvesse amanhã. O senhor Adolfo nem quer acreditar, vai para a casa de banho, puxa as calças para a baixo e senta-se na sanita, mesmo que não tenha grande vontade de cagar, desculpe-me o leitor o termo. Está ali para reflectir, qual Pensador de Rodin.
Vou matá-la, pensa ele, vou matá-la. E a ele, a ele também. Aos dois. Comprámos o faqueiro novo, deve ter uns belos utensílios, vamos fazer isto à moda antiga, tudo com as tripas de fora e tudo cheio de sangue, assim é que deve ser.
Quem conseguisse ler-lhe os pensamentos, diria, "Quem é este, o senhor Adolfo não é de certeza, aquele paz de alma contabilista não ia chafurdar os lençóis com estes pensamentos doentios, e matar a mulher, eles que se amam tanto. Nem pensar, não, o senhor Adolfo não é de certeza."
E não fogem muito à verdade se o pensarem assim. O senhor Adolfo não se vai armar agora em talhante, nem vai matar ninguém. De facto, vai só limpar o rabo, que nem sujo está, vestir as calças, arejar um pouco, deixar que o estranho que lhe habita a cama se vá embora e depois entrar em casa como se nada fosse, "atrasei-me um pouco no trabalho, estás tão linda hoje, vamos ver o Nothing Hill". E porquê? Como é capaz de aguentar assim uma traição, perdoando com um ânimo tão leve? A resposta é simples. Sem a mulher para o esperar quando chega a casa, o senhor Adolfo ficaria só. E a solidão caro leitor, é a coisa mais triste que há na vida.
(com a ajuda de Deus e do Zé)
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
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4 comentários:
"vamos fazer isto à moda antiga, tudo com as tripas de fora e tudo cheio de sangue, assim é que deve ser."
Adolfo? Adolf Hitler?!
"Adolfo? Adolf Hitler?!"
pois claro :)
"(com a ajuda de Deus e do Zé)"
que redundantes estamos :P
mas sim, gosto.
[o Zé]
A propósito, verifica a linha 14.
Gostei...
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