-Estou a morrer, disse o homem sentado na cama, encharcado em suor. A mulher acordou com a agitação na cama, olhou para o relógio e virou-se para o homem.
-O quê?, perguntou-lhe com os olhos fechados.
-Estou a morrer, já te disse, respondeu-lhe ele.
-São quatro da manhã, páras de dizer baboseiras?
-Mas não é nenhuma baboseira, disse-lhe ofegante, estou mesmo a morrer.
-Se pensas que me levas a ter sexo com essas conversas, estás muito enganado. Importas-te de desligar a luz e voltar a dormir?
-Será que não percebes? Estou a morrer, no seu sentido mais verdadeiro, mais puro e literal, estou a morrer, a falecer, a bater as botas.
A mulher acendeu o seu candeeiro e sentou-se ao lado do homem que contemplava o infinito à sua frente de olhos esbugalhados.
-Tiveste algum pesadelo?
-Não, nem nenhum sonho, tenho a impressão de nunca ter estado a dormir.
-Mas eu bem te ouvi a ressonar.
-O que interessa é que cheguei à conclusão que estou a morrer.
-Deves estar com febre, estás completamente maluco.
-Não, não, não, disse o homem virando-se pela primeira vez para a mulher, parece-me a mim que estou mais lúcido que nunca.
-Não é sinónimo de lucidez acordar a meio da noite e dizer-se que se está a morrer, sabendo tu muito bem o resultado das análises da semana passada e que diziam que estava tudo bem.
-Não são as análises que me dizem isso, nem é preciso que nenhum médico ou especialista me venha dizer que estou a morrer, esse deveria ser um dado adquirido para o mundo inteiro.
-Estás a dizer-me que estou a morrer, eu também?
-Claro, não és mais que qualquer um.
-Que eu saiba, não tenho qualquer cancro ou doença que me esteja a matar.
-Mas estás a morrer.
-Ainda não sei porque me estou a dar ao trabalho de falar contigo.
-Escuta-me, a cada dia que passa, morres. Tu e qualquer outro ser que por cá habite. A partir do momento em que é gerado, o ser humano inicia uma contagem decrescente para o dia da sua morte. O Homem não vive, se é que me compreendes, o homem morre, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo, ganha uma ruga, dá um passo em frente para o abismo, caminha para os braços da morte, sempre prontos a acolher-nos.
-Cala-te, nada disso está a fazer sentido, estás a assustar-me.
-Mas não tens que te assustar, a morte é a coisa mais natural da vida, a sua existência é tão óbvia como o fogo ser quente, como a pedra ser dura, como a chuva ser molhada. Cheguei a esta conclusão, o homem não vive. O homem morre.
A mulher massajou as pálpebras, deixou-se ficar de olhos fechados a saborear o silêncio e disse.
-É sexo que queres?
O homem, já mais calmo, olhou-a e respondeu-lhe.
-Se a vida é uma via sacra tão efémera, para quê gastá-la a dormir?
E lá foram os dois, numa viagem pelas colchas e pelos lençóis, que em Novembro as noites são frias, a praticar um dos actos mais primitivos da natureza humana, estavam provavelmente a gerar vida para enganar a morte. Se gostaram ou não, não o saberemos. Pelo menos ela bem gemeu, mas diz o povo que a mulher é grande actriz nestas artes do sexo.
Dois dias depois, outro homem se levantou da cama pelas três da manhã e disse, como quem declarava uma verdade inquestionável:
-Estou a morrer.
Desta vez não havia ninguém ao seu lado. Voltou a deitar-se e adormeceu.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
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4 comentários:
A principal causa de morte, é a vida.
;)
Tenho de me enriquecer em adjectivos senão ser-me-á impossível fazer um comentário aos teus textos.
és completamente alucinado.
Ah! Ah! Muito bom, gostei mesmo. Continua ;).
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