domingo, 1 de março de 2009

Aparição Estival


Seria meio-dia, pouco mais que isso, quando arrastando o passo pela cidade, todo o meu corpo se petrificou. Do outro lado da rua, depois de descer uma breve escadaria, uma mulher imobilizara-se no último degrau antes do passeio, bronzeando-se no escaldante sol de Julho. Os seus pés, calçando um simples sapatos negros, balançavam no degrau. Mas todo o seu corpo era firme; as pernas fortes, porém elegantes, estavam praticamente a descoberto, apesar da saia do vestido translúcido lhe chegar aos joelhos. De facto, apesar de aparentar ser uma peça de vestuário bastante cândida, deixava ver a nudez das virilhas, e quando soprada pela leve brisa quente, até o sexo se fazia deslumbrar na penumbra. Um elegante chapéu de palha com fita preta tapava-lhe a cabeça, mas não o cabelo, de um ruivo crepitante que se desenrolava até aos ombros. O rosto era de uma palidez impressionante, quase fúnebre, onde contrastavam os lábios carnudos e garridos, implorando por um longo e grave beijo. Um dos braços apoiava-se num largo pilar que compunha a entrada do edifício, o outro repousava inocente atrás das costas. Mas o que mais se salientava por baixo do branco do vestido eram os seios, libertos e provocantes, incrivelmente firmes, de onde surgiam, lúbricos, os dois mamilos, envoltos na carne cor de tijolo do peito. Aquela figura ali, imóvel, tão clara e pura, num cenário ofensivamente branco despertou em mim tal volúpia, tal líbido, tal vontade bárbara de sujar aquela figura de mácula, tal vontade animalesca de lhe despedaçar o vestido e de explorar lascivamente todos os interstícios do seu corpo, ali mesmo, no passeio, sem pudor, um desejo de me perder no seu corpo, de voltar a ser criança de leite, de a possuír, inteiramente, à luz de um escaldante sol de Verão.
Tais pensamentos, pouco habituais na minha mente, tão vazia de malícia, levaram-me a atrevessar a rua, apenas olhando aquela figura deleitável, abstraindo-me de tudo o resto. Desconhecia eu de um carro que vinha da minha direita e que não teve tempo de travar aquando da minha passagem.
De mais, não me recordo. Acordei em cama de hospital, um milagre ter sobrevivido, disseram os médicos. Perguntei pela mulher, se me acudira, se me visitara durante o meu longo sono de duas semanas. Mas ninguém parecia saber do que estava a falar, o condutor do automóvel negou que estivesse alguém do outro lado da estrada, os transeuntes nada viram também. "Alguma alucinação que te deu com o calor", diziam uns; "isso foi tudo desejo acumulado, bem dizemos que precisas de uma mulher para te consolar", gracejavam outros. Está ainda hoje por explicar o mistério dessa mulher.
Quando saí finalmente à rua, já há muito o Verão terminara. Voltei ainda ao local, onde se tinha desvanecido toda a luxúria daquele dia. Segui com o meu passo melancólico e lento, deixando-me molhar por uma chuva fina que começara a cair, duvidando porém de ter ou não visto a silhueta de um peito feminino numa janela perto da escadaria...