Como sabem, não me considero o senhor da justiça e da moral. Mato por necessidade. Não “necessidade” no sentido do predador que mata porque precise de se alimentar mas “Necessidade” de me sentir completo. Pensando bem, talvez seja como o Amor, aquela necessidade tão nojenta e tão poética que a humanidade tem de encontrar um alguém que nos ache encantadores. Sim, talvez seja Amor. O desejo extremo, o idolatrar do som, do cheiro, da visão da Morte. Sentir a Vida a abandonar mais um corpo, a subir-me pelas mãos, a trepar lentamente pelos braços, eriçando todos os pelos pelo caminho, e a ir preencher mais um cantinho negro no pedaço de carvão que trago alojado no peito. Sim, sinto-me mais completo de cada vez que mato. Mas a plenitude que sinto pouco dura, rapidamente se esvai. Esgota-se a cada respirar, a cada piscar de olhos. E nessa altura, o meu corpo impele-me a matar.
Não penso em mais nada, não sinto mais nada, não quero saber de mais nada. Vou ao meu “livro de receitas”, o pequeno manual de capa de couro velho onde tenho guardado todas as vítimas e todas as formas de que já matei. Escolho uma receita, preparo os ingredientes (umas gramas de mistério, tantas outras de acção, uma pequena pitada de terror e violência q.b.) e limpo os utensílios e mais importante, preparo-me a mim, preparo o Orquestrador de tudo isto. De vez em quando, quando o sentimento de nostalgia lá aflora à pele, gosto de o ler e reler. De analisar as maneiras ingénuas e trapalhonas da adolescência, de rever o profundo semblante da Morte. Não faço por esconder os cadáveres das vítimas. Não sou médico legista, não é esse o meu trabalho. O meu trabalho é dar-lhes trabalho. Aos médicos, aos polícias…
Nunca fui apanhado, nunca fui questionado, nunca fui sequer mandado para pela polícia por excesso de velocidade. Quem me dera que me parassem e é claro que não vou ser eu a tentar parar-me a mim próprio. Não sou assim estúpido a esse ponto…
Mas olhem para o relógio… Queria tanto contar-vos mais coisas, dos que me marcaram mais, dos que me deram mais gozo… Mas o tempo voa e parece já ser tempo outra vez. Tempo de quê? De matar, ora.
[Z]
Como eu esperava, foram incontáveis os textos que me vieram parar às mãos. Incontáveis para quem não sabe contar até dois, mas ainda assim, foram dois textos bons. O escolhido foi o do Zé, que não se aproxima em nada da minha segunda parte, e ainda bem. Obrigado.
apetecememorrer.blogspot.com
sábado, 20 de setembro de 2008
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Tchan Tchan Tchan Tchan
Mais uma vez, acho que a segunda parte de uma chuva minha não é suficientemente boa para ser publicada. Assim sendo, dou a oportunidade a um dos raros leitores que por aqui passam para dar continuidade a esta estória. Só têm que enviar o vosso texto para o e-mail pedro_msz@hotmail.com, não há cá apartados nem outras mariquices. A melhor (ou a única), será publicada aqui.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Bellevue ou O Monólogo do Assassino Sentimental (I)

Olá a todos. O meu nome, não o vão saber, por razões óbvias. O que vos importa saber é que sou aquilo a que os media gostam de chamar de assassino em série. Não é o nome que me define melhor, mas se tenho que ser reduzido a um estérotipo, lá terá que ser. Na verdade, sou bastante diferente dos outros assassinos em série. Não o faço por ter um trauma de infância, ou por ter um sentido de justiça mais apurado, ou por me achar omnipotente, divino, podendo decidir quando será o fim para determinada pessoa. Nada disso. Faço-o por necessidade, porque tem que ser. Há quem se sinta mal se não fumar um cigarro, ou se não beber um café, ou se não snifar umas gramas de coca. Eu sinto-me mal se não matar alguém. É um mau vicío, não o nego. E a minha avó que sempre me disse para não me meter nas drogas. Antes tivesse metido avó, antes tivesse metido.
Mas o meu impulso de matar escapa-se de novo de um estéreotipo. Este vício não é normal, pois quando mato alguém, não fico a sentir-me bem. Pelo contrário, fico a sentir-me pessimamente. Choro muito, puxo os cabelos e pergunto "porquê?" vinte vezes. Então, porque mato, se fico a sentir-me pessimamente? É tudo uma questão de relatividade. Se não mato, fico a sentir-me ainda pior.
Gostava de me lembrar da primeira vez. Sei que foi uma coisa acidental, com um míudo lá da escola. Não fui acusado de nada, mas uns meses depois tive uma série de sonhos macabros, um apetite pela morte. Matei uma galinha, um gato, um cão. Nada, os sonhos continuavam. Acabei por atropelar um velho com a mota dos meus pais. Atropelamento e fuga, ninguém suspeitou de nada. E foi assim que tudo começou, com a dependência a obrigar-me a matar em intervalos cada vez mais pequenos.
A escolha das minhas vítimas é, na maior parte das vezes, aleatória. Abro as páginas amarelas, passeio o meu indicador por uma folha qualquer e páro subitamente. O nome que estiver por baixo é o escolhido. Sondo o local uma ou duas vezes, para saber se há perigo. Se se advinharem as mínimas dificuldades, escolho outro nome rapidamente, não fico a estudar a pessoa, sabendo a que horas sai, a que horas entra, se sai, se entra, se como pizza, se tem filhos, se tem marido, se tem mulher, se tem amante. Neste caso, a ignorância é uma coisa boa. Fico sempre sem saber se estou a matar uma jóia de pessoa ou um filho da puta, embora queira sempre convencer-me da segunda hipótese.
(fim da primeira parte)
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