Não fossem teus lábios tão interditos
e fosse teu pai um homem mais distante,
segunda-feira, 24 de Agosto de 2009
terça-feira, 9 de Junho de 2009
A mordibez das madrugadas solitárias
Ao David, que a poesia só se nega uma vez
Que belo é o empalidecer da carne,
a lividez dos olhos, o negrume dos
lábios e o enrijecer da pele!
Que sublime o cessar do movimento,
o fim dos respiros, a secura do
plasma e o fim do batimento!
Que jubilosos os funerais, os lutos,
os enterros e as cremações!
Que apoteóticos estes esfarelamentos
de ilusões!
'É louco!, dizem, julga a morte uma
alegria!'. Mas o que haverá de mais
alegre no mundo do que o fim
perpétuo e irrevogável da vida,
do que a triunfante capitulação
desta lânguida agonia?
sábado, 25 de Abril de 2009
Súbita, uma angústia (parte II)
E súbita, uma angústia...
Uma angústia aflita, inquieta, que roçava o desespero. Nascera-lhe nas entranhas e com uma acidez brutal queimava-lhe todo o corpo, como uma doença maligna. Apoderava-se do seu sistema nervoso a um ritmo galopante, trazendo-lhe visões de sangue e ruína. Era àquele homem de barba curta, tão sereno no seu fúnebre casaco negro, que esta angústia vinha disturbar. E eram aqueles dois amantes, devorando-se à sua frente, à luz fria e pecadora das lâmpadas da carruagem, os responsáveis por tamanha amargura que se concebia no seu estômago. Os seus olhos, antes adormecidos pela indolência das horas melancólicas da vida, raivam agora um ódio furioso perante o espetáculo hediondo a que assistia gratuitamente.
O que o envolvia era uma pesada náusea, um nojo imenso daquilo que se fazia à sua frente: aquela sede sôfrega da libido no seu sentido mais animalesco, ali escondido por entre mordeduras e repugnantes trocas de humor, que navegava de língua para língua, de lábio para lábio, na mesma viscosidade horrenda que um pus execrável. Tudo isto ali, na banalidade de dois bancos do metro, atentando ao pudor da alma humana, que já tanto deve à moral e às boas maneiras.
A voz metálica, abafada pelo furioso cavalgar da carruagem, anunciava de novo a penúltima paragem. Naquele pequeno espaço vivia-se um clima de agitação, embora nenhum dos passageiros sequer esboçasse um movimento brusco. O homem, entregue à sua tempestuosa angústia, que o seu orgulho nega ser inveja e afirma ser desdém, fervilhava dentro do seu longo casaco. O seu rosto apresentava-se garrido e suado, fazendo-lhe uma irritante comichão na barba. Com uma das mãos, coçava-se nervosamente, não tirando os olhos dos amantes à sua frente; a outra permanecia num bolso do casaco, brincando com pequeno molho de chaves cortantes e aguçadas.
Enquanto a mulher ainda sorria olhando as imagens do jornal á sua frente, eufemizando a sua amargurada vida, o casal banhava-se no leito da inocência e da candura, num júbilo digno de uma solarenga manhã estival. No auge das suas ingenuidades, entregavam-se um ao outro epicamente, num hino à dilecção que os entrelaçava e unia: olhavam-se cumplicemente contemplando o seu pedaço de Éden, inalavam o aroma quente e macio do seu afecto, sussurravam palavras tolas de criança e riam em surdina, conscientes da asneira que ali perpetravam, mordiam-se embalados pela arrebatadora volúpia que os invadia...e provavam-se, matavam a sede um ao outro com o néctar mais simples e no entanto, mais valioso. E mesmo assim, entregando todos os seus sentidos àquele momento, duvidavam da sua realidade, acreditavam que tudo aquilo era uma distante utopia, uma quimera leda e triste que a fortuna não deixa durar muito.
Antes de chegarem à penúltima paragem, o homem levantou-se do seu banco num ímpeto. Agarrando-se a uma pega que descia do tecto da carruagem, permaneceu ali imóvel durante alguns segundos, não colhendo qualquer reacção dos outros passageiros: a mulher continuava a sorrir estupidamente, os amantes ainda se chafurdavam de mácula naquela espécie de prostíbulo. Tentando manter à custa o equilíbrio, o homem caminhou sinuosamente por entre os bancos até chegar perto dos jovens. Estes, alienados de tudo o que os rodeava, continuaram refugiados na sua intimidade, não ligando à figura que ali estava tão próxima. Então, numa vertigem, o homem empalideceu cadavericamente, os olhos inundaram-se de uma lividez fúnebre os músculos tornaram-se hirtos e gélidos. Após pigarrear gravemente, 0 casal interrompeu o que estava a fazer e olhou o homem pela primeira vez.
Ela não conteve o susto e soltou um surdo "Ah!", que acompanhou a sua expressão de horror. Ele, mantendo a face firme, sem expressão, mostrou a fraqueza no seu olhar titónico, que tremia de medo daquela figura defunta que se lhe apresentava. Ficaram assim alguns momentos, olhando-se e sem se mexerem, até a carruagem finalmente parar. Assim, guiado por uma violência colossal, o homem tirou as chaves do bolso do casaco e repentinamente cravou-as no pescoço moreno do rapaz. A rapariga explodiu num histerismo hiperbólico, batendo à janela e pedindo ajuda à estação deserta, enquanto o homem penetrava com as chaves cada vez mais no interior da gargante do jovem, fazendo esguichar o sangue furioso e infernal. Mal as portas se abriram, o homem, ainda dono de uma palidez assustadora, saiu rapidamente da carruagem, manchado do jorro de sangue que lhe correra para o casaco negro.
Entretanto, o jovem morria desamparado, vomitando sangue pela boca e pela garganta e a namorada, vendo-lhe o fim tão próximo, lavava-se naquele sangue, beijando-lhe o rosto e a boca, ficando ela imunda, ao mesmo tempo que ele, em violentos espasmos, perdia a vida aflitivamente.
Pouco antes das portas fecharem, a mulher dobrou o jornal e saiu da carruagem, sem olhara para trás. Subiu as escadas íngremes que davam acesso a uma larga praça com um monumental obelisco. Tudo naquela praça parecia embalado num gigantesco torpor, à luz da melanacólica luz crepuscular. Os rostos dos transeuntes estavam esculpidos com expressões de agonia e desolação. Apenas a mulher da carruagem, na sua extravagante máscara de maquilhagem, sorria, um sorriso sincero e forçado. Deu alguns passos ruidosos pelo passeio quando ouviu ao longe o grito de uma mulher.
Retirou o semblante feliz da cara e parou.
E súbita, uma angústia...
Uma angústia aflita, inquieta, que roçava o desespero. Nascera-lhe nas entranhas e com uma acidez brutal queimava-lhe todo o corpo, como uma doença maligna. Apoderava-se do seu sistema nervoso a um ritmo galopante, trazendo-lhe visões de sangue e ruína. Era àquele homem de barba curta, tão sereno no seu fúnebre casaco negro, que esta angústia vinha disturbar. E eram aqueles dois amantes, devorando-se à sua frente, à luz fria e pecadora das lâmpadas da carruagem, os responsáveis por tamanha amargura que se concebia no seu estômago. Os seus olhos, antes adormecidos pela indolência das horas melancólicas da vida, raivam agora um ódio furioso perante o espetáculo hediondo a que assistia gratuitamente.
O que o envolvia era uma pesada náusea, um nojo imenso daquilo que se fazia à sua frente: aquela sede sôfrega da libido no seu sentido mais animalesco, ali escondido por entre mordeduras e repugnantes trocas de humor, que navegava de língua para língua, de lábio para lábio, na mesma viscosidade horrenda que um pus execrável. Tudo isto ali, na banalidade de dois bancos do metro, atentando ao pudor da alma humana, que já tanto deve à moral e às boas maneiras.
A voz metálica, abafada pelo furioso cavalgar da carruagem, anunciava de novo a penúltima paragem. Naquele pequeno espaço vivia-se um clima de agitação, embora nenhum dos passageiros sequer esboçasse um movimento brusco. O homem, entregue à sua tempestuosa angústia, que o seu orgulho nega ser inveja e afirma ser desdém, fervilhava dentro do seu longo casaco. O seu rosto apresentava-se garrido e suado, fazendo-lhe uma irritante comichão na barba. Com uma das mãos, coçava-se nervosamente, não tirando os olhos dos amantes à sua frente; a outra permanecia num bolso do casaco, brincando com pequeno molho de chaves cortantes e aguçadas.
Enquanto a mulher ainda sorria olhando as imagens do jornal á sua frente, eufemizando a sua amargurada vida, o casal banhava-se no leito da inocência e da candura, num júbilo digno de uma solarenga manhã estival. No auge das suas ingenuidades, entregavam-se um ao outro epicamente, num hino à dilecção que os entrelaçava e unia: olhavam-se cumplicemente contemplando o seu pedaço de Éden, inalavam o aroma quente e macio do seu afecto, sussurravam palavras tolas de criança e riam em surdina, conscientes da asneira que ali perpetravam, mordiam-se embalados pela arrebatadora volúpia que os invadia...e provavam-se, matavam a sede um ao outro com o néctar mais simples e no entanto, mais valioso. E mesmo assim, entregando todos os seus sentidos àquele momento, duvidavam da sua realidade, acreditavam que tudo aquilo era uma distante utopia, uma quimera leda e triste que a fortuna não deixa durar muito.
Antes de chegarem à penúltima paragem, o homem levantou-se do seu banco num ímpeto. Agarrando-se a uma pega que descia do tecto da carruagem, permaneceu ali imóvel durante alguns segundos, não colhendo qualquer reacção dos outros passageiros: a mulher continuava a sorrir estupidamente, os amantes ainda se chafurdavam de mácula naquela espécie de prostíbulo. Tentando manter à custa o equilíbrio, o homem caminhou sinuosamente por entre os bancos até chegar perto dos jovens. Estes, alienados de tudo o que os rodeava, continuaram refugiados na sua intimidade, não ligando à figura que ali estava tão próxima. Então, numa vertigem, o homem empalideceu cadavericamente, os olhos inundaram-se de uma lividez fúnebre os músculos tornaram-se hirtos e gélidos. Após pigarrear gravemente, 0 casal interrompeu o que estava a fazer e olhou o homem pela primeira vez.
Ela não conteve o susto e soltou um surdo "Ah!", que acompanhou a sua expressão de horror. Ele, mantendo a face firme, sem expressão, mostrou a fraqueza no seu olhar titónico, que tremia de medo daquela figura defunta que se lhe apresentava. Ficaram assim alguns momentos, olhando-se e sem se mexerem, até a carruagem finalmente parar. Assim, guiado por uma violência colossal, o homem tirou as chaves do bolso do casaco e repentinamente cravou-as no pescoço moreno do rapaz. A rapariga explodiu num histerismo hiperbólico, batendo à janela e pedindo ajuda à estação deserta, enquanto o homem penetrava com as chaves cada vez mais no interior da gargante do jovem, fazendo esguichar o sangue furioso e infernal. Mal as portas se abriram, o homem, ainda dono de uma palidez assustadora, saiu rapidamente da carruagem, manchado do jorro de sangue que lhe correra para o casaco negro.
Entretanto, o jovem morria desamparado, vomitando sangue pela boca e pela garganta e a namorada, vendo-lhe o fim tão próximo, lavava-se naquele sangue, beijando-lhe o rosto e a boca, ficando ela imunda, ao mesmo tempo que ele, em violentos espasmos, perdia a vida aflitivamente.
Pouco antes das portas fecharem, a mulher dobrou o jornal e saiu da carruagem, sem olhara para trás. Subiu as escadas íngremes que davam acesso a uma larga praça com um monumental obelisco. Tudo naquela praça parecia embalado num gigantesco torpor, à luz da melanacólica luz crepuscular. Os rostos dos transeuntes estavam esculpidos com expressões de agonia e desolação. Apenas a mulher da carruagem, na sua extravagante máscara de maquilhagem, sorria, um sorriso sincero e forçado. Deu alguns passos ruidosos pelo passeio quando ouviu ao longe o grito de uma mulher.
Retirou o semblante feliz da cara e parou.
E súbita, uma angústia...
sexta-feira, 24 de Abril de 2009
Súbita, uma angústia (parte I)
A carruagem do metropolitano, aproximando-se da última estação da sua linha, era ocupada por apenas quatro pessoas que, dispersadas pelos bancos sujos de plástico, respiravam a melancolia de um princípio de noite numa grande cidade. Enquanto penetrava os túneis negros da rede de metropolitano, várias luzes iluminavam-na de um branco chocante, conferindo-lhe um aspecto ainda menos confortável do que já era, não tendo pudor de aclarar a imundice do chão e das paredes, de um vermelho muito esbatido e riscado. A sua ruidosa cavalgada pelos carris era a banda sonora daquele cenário deprimente, abafando todos os outros sons existentes e tornando inaudível a voz metálica que anunciava as próximas estações.
Um dos passageiros era um homem de rosto jovem, com uma barba curta que não conseguia esconder a sua face marcada por ligeiras deformações. Sepultado num solene casaco negro, apresentava o tronco contraído, com os ombros junto ao queixo, numa postura de angustiosa inquietação, daquelas de que todo o mundo tem mas que guardamos só para nós como um segredo privado. No banco ao seu lado repousava um livro que, de capa creme e lisa, onde se viam pequenas letras castanhadas, se apresentava num estado ruinoso, com as páginas dobradas e desalinhadas do centro. Este passageiro ocupava um lugar imediatamente a seguir à porta, olhando fixamente para a sua frente, de olhar lívido e distante.
À sua frente estavam os restantes passageiros. Do seu lado direito, uma mulher de meia idade, barbaramente maquilhada em tons de verde e roxo, passava os olhos cansados pelas folhas de um jornal gratuito. O cabelo negro e sujo e as chinelas velhas e rotas mostravam que não era muito abastada; a saia lisa que vestia deixava mostrar as tíbias negras e porcas, manchadas aqui e ali de nódoas arroxeadas; os seus seios, enterrados por baixo de um casaco de malha, eram tão pouco salientes que lhe retiravam grande parte da sua femininidade. E embora a boca, pintada grotescamente de uma cor que está ainda para ser inventada, esboçasse um ténue sorriso quando lia a secção de anedotas de uma página do jornal, conseguíamos ler naquele rosto uma amargura profunda cuja origem nunca ficaremos a saber. Poderá ser fome, sede, luto, dor, solidão...são tantas as coisas que levam à mágoa da alma humana que por muito condolentes que sejamos, não as poderíamos escrever todas.
Os dois passageiros que sobram estavam uns bancos à frente do homem de que falámos primeiramente, e para ele estavam de frente. Dois adolescentes, na frescura da sua idade, estavam abraçados ternamente, ora encostando cândidamente os lábios ora perdendo-se os dois em longas endoscopias, tomando aquela carruagem como o ninho mais natural da sua intimidade, trocando murmúrios e risos silenciados pelo contínuo ruído da passagem pelos carris. Ela, sufocada por casacos e cachecóis, deixava vislumbrar a pele branca, pincelada por alguns sinais insignificantes, e os lábios, imaculados, puros como vieram ao mundo, pequenos e formosos, uma fonte onde o Homem não hesitaria em matar a sede. Ele, de barrete na cabeça, tão agasalhado como ela, deixava a descoberto a face trigueira, dona de uns olhos cristalinos e de um monumental sorriso, que mostrava sem vergonha os 30 dentes das suas mandíbulas.
Assim, no ar plástico daquela carruagem, a sisudez contrastava com o júbilo, numa luta desigual, não a nível de números, nem graças ao conhecimento elementar, adquirido nos filmes de animação infantis, de que o amor vence sempre. Neste caso, convém saber alguma coisa de matemática, pois mais por menos, dá menos e só Deus sabe como esta viagem vai acabar.
A voz feminina da gravação indicou o nome da penúltima estação. As luzes da carruagem pareciam mais intensas que nunca, como relâmpagos atirados por alguma divindade superior, enchendo aqueles bancos, aquele chão, aquelas portas de uma brancura ofensiva. Por entre a mistura nauseabunda de cheiros de transpiração, perfume barato, tabaco e mijo, a mulher que lia o jornal rugiu um assombroso e nojento bocejo. E enquanto a carruagem trovejava violentamente sobre os carris, o casal encostava as testas e o nariz, fechava os olhos e beijava-se tempestuosamente, numa cumplicidade troante e plena de escárnio e desprezo.
E súbita, uma angústia...
(continua)
Um dos passageiros era um homem de rosto jovem, com uma barba curta que não conseguia esconder a sua face marcada por ligeiras deformações. Sepultado num solene casaco negro, apresentava o tronco contraído, com os ombros junto ao queixo, numa postura de angustiosa inquietação, daquelas de que todo o mundo tem mas que guardamos só para nós como um segredo privado. No banco ao seu lado repousava um livro que, de capa creme e lisa, onde se viam pequenas letras castanhadas, se apresentava num estado ruinoso, com as páginas dobradas e desalinhadas do centro. Este passageiro ocupava um lugar imediatamente a seguir à porta, olhando fixamente para a sua frente, de olhar lívido e distante.
À sua frente estavam os restantes passageiros. Do seu lado direito, uma mulher de meia idade, barbaramente maquilhada em tons de verde e roxo, passava os olhos cansados pelas folhas de um jornal gratuito. O cabelo negro e sujo e as chinelas velhas e rotas mostravam que não era muito abastada; a saia lisa que vestia deixava mostrar as tíbias negras e porcas, manchadas aqui e ali de nódoas arroxeadas; os seus seios, enterrados por baixo de um casaco de malha, eram tão pouco salientes que lhe retiravam grande parte da sua femininidade. E embora a boca, pintada grotescamente de uma cor que está ainda para ser inventada, esboçasse um ténue sorriso quando lia a secção de anedotas de uma página do jornal, conseguíamos ler naquele rosto uma amargura profunda cuja origem nunca ficaremos a saber. Poderá ser fome, sede, luto, dor, solidão...são tantas as coisas que levam à mágoa da alma humana que por muito condolentes que sejamos, não as poderíamos escrever todas.
Os dois passageiros que sobram estavam uns bancos à frente do homem de que falámos primeiramente, e para ele estavam de frente. Dois adolescentes, na frescura da sua idade, estavam abraçados ternamente, ora encostando cândidamente os lábios ora perdendo-se os dois em longas endoscopias, tomando aquela carruagem como o ninho mais natural da sua intimidade, trocando murmúrios e risos silenciados pelo contínuo ruído da passagem pelos carris. Ela, sufocada por casacos e cachecóis, deixava vislumbrar a pele branca, pincelada por alguns sinais insignificantes, e os lábios, imaculados, puros como vieram ao mundo, pequenos e formosos, uma fonte onde o Homem não hesitaria em matar a sede. Ele, de barrete na cabeça, tão agasalhado como ela, deixava a descoberto a face trigueira, dona de uns olhos cristalinos e de um monumental sorriso, que mostrava sem vergonha os 30 dentes das suas mandíbulas.
Assim, no ar plástico daquela carruagem, a sisudez contrastava com o júbilo, numa luta desigual, não a nível de números, nem graças ao conhecimento elementar, adquirido nos filmes de animação infantis, de que o amor vence sempre. Neste caso, convém saber alguma coisa de matemática, pois mais por menos, dá menos e só Deus sabe como esta viagem vai acabar.
A voz feminina da gravação indicou o nome da penúltima estação. As luzes da carruagem pareciam mais intensas que nunca, como relâmpagos atirados por alguma divindade superior, enchendo aqueles bancos, aquele chão, aquelas portas de uma brancura ofensiva. Por entre a mistura nauseabunda de cheiros de transpiração, perfume barato, tabaco e mijo, a mulher que lia o jornal rugiu um assombroso e nojento bocejo. E enquanto a carruagem trovejava violentamente sobre os carris, o casal encostava as testas e o nariz, fechava os olhos e beijava-se tempestuosamente, numa cumplicidade troante e plena de escárnio e desprezo.
E súbita, uma angústia...
(continua)
quinta-feira, 16 de Abril de 2009
A Memória, em papel
Já há algum tempo que não se escreve nada por aqui, mas não é que tenha decidido acabar com este espaço. É só resultado de um período mais negro da criatividade, espero que melhores tempos se avizinhem.
Entretanto, aproveito para avisar que pela primeira vez, um texto originalmente publicado neste blog será publicado noutro sítio. Não é esta nenhuma forma de valorização pessoal, tenho a que chegue, mas é só para esclarecer que o importante na escrita é a qualidade e a criatividade e não o tema escolhido. "A Memória" está presente na publicação escolar Acrobacias com a Palavras, um grande feito, dadas as suas características, que se aproximam de uma alegada "literatura pornográfica".
Em Abril, águas mil. Quem sabe...ainda hoje é dia 16.
Entretanto, aproveito para avisar que pela primeira vez, um texto originalmente publicado neste blog será publicado noutro sítio. Não é esta nenhuma forma de valorização pessoal, tenho a que chegue, mas é só para esclarecer que o importante na escrita é a qualidade e a criatividade e não o tema escolhido. "A Memória" está presente na publicação escolar Acrobacias com a Palavras, um grande feito, dadas as suas características, que se aproximam de uma alegada "literatura pornográfica".
Em Abril, águas mil. Quem sabe...ainda hoje é dia 16.
domingo, 1 de Março de 2009
Aparição Estival

Seria meio-dia, pouco mais que isso, quando arrastando o passo pela cidade, todo o meu corpo se petrificou. Do outro lado da rua, depois de descer uma breve escadaria, uma mulher imobilizara-se no último degrau antes do passeio, bronzeando-se no escaldante sol de Julho. Os seus pés, calçando um simples sapatos negros, balançavam no degrau. Mas todo o seu corpo era firme; as pernas fortes, porém elegantes, estavam praticamente a descoberto, apesar da saia do vestido translúcido lhe chegar aos joelhos. De facto, apesar de aparentar ser uma peça de vestuário bastante cândida, deixava ver a nudez das virilhas, e quando soprada pela leve brisa quente, até o sexo se fazia deslumbrar na penumbra. Um elegante chapéu de palha com fita preta tapava-lhe a cabeça, mas não o cabelo, de um ruivo crepitante que se desenrolava até aos ombros. O rosto era de uma palidez impressionante, quase fúnebre, onde contrastavam os lábios carnudos e garridos, implorando por um longo e grave beijo. Um dos braços apoiava-se num largo pilar que compunha a entrada do edifício, o outro repousava inocente atrás das costas. Mas o que mais se salientava por baixo do branco do vestido eram os seios, libertos e provocantes, incrivelmente firmes, de onde surgiam, lúbricos, os dois mamilos, envoltos na carne cor de tijolo do peito. Aquela figura ali, imóvel, tão clara e pura, num cenário ofensivamente branco despertou em mim tal volúpia, tal líbido, tal vontade bárbara de sujar aquela figura de mácula, tal vontade animalesca de lhe despedaçar o vestido e de explorar lascivamente todos os interstícios do seu corpo, ali mesmo, no passeio, sem pudor, um desejo de me perder no seu corpo, de voltar a ser criança de leite, de a possuír, inteiramente, à luz de um escaldante sol de Verão.
Tais pensamentos, pouco habituais na minha mente, tão vazia de malícia, levaram-me a atrevessar a rua, apenas olhando aquela figura deleitável, abstraindo-me de tudo o resto. Desconhecia eu de um carro que vinha da minha direita e que não teve tempo de travar aquando da minha passagem.
De mais, não me recordo. Acordei em cama de hospital, um milagre ter sobrevivido, disseram os médicos. Perguntei pela mulher, se me acudira, se me visitara durante o meu longo sono de duas semanas. Mas ninguém parecia saber do que estava a falar, o condutor do automóvel negou que estivesse alguém do outro lado da estrada, os transeuntes nada viram também. "Alguma alucinação que te deu com o calor", diziam uns; "isso foi tudo desejo acumulado, bem dizemos que precisas de uma mulher para te consolar", gracejavam outros. Está ainda hoje por explicar o mistério dessa mulher.
Quando saí finalmente à rua, já há muito o Verão terminara. Voltei ainda ao local, onde se tinha desvanecido toda a luxúria daquele dia. Segui com o meu passo melancólico e lento, deixando-me molhar por uma chuva fina que começara a cair, duvidando porém de ter ou não visto a silhueta de um peito feminino numa janela perto da escadaria...
sábado, 14 de Fevereiro de 2009
A vida é uma incógnita
http://colectivocontadores.blogspot.com/2009/02/vida-e-uma-incognita.html
O que quer que façam, façam-no n'O Colectivo.
O que quer que façam, façam-no n'O Colectivo.
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