sábado, 8 de março de 2008

O Suicídio de Tiago Marques (segunda parte)

Com passos suspensos no silêncio da casa, os seus movimentos graciosos degeneravam na imundice da sua alma. Os seus olhos estavam vidrados no maldito objecto, e flashes das noites de amor louco, desregrado, passado longínquo que o fazia recordar (e acreditar) que já fora homem poderoso, que lançava os dados e fazia a sua jogada macabra, utilizando para o seu vício a virtuosidade inocente de Margarida, passavam-lhe qual rajada de ar.
Sentia-se destronado, mas o sentimento de poder regressou embrulhado numa torrente de emoções quando, finalmente, tomou posse do serrote. Os seus dedos fortes e insensíveis deslizaram pelo metal gelado; sentiu um arrepio desdenhoso trepar-lhe pelas costas acima. Era um apelo de coragem, o serrote gritava por ele, convidava-o a consumar a sua finalidade. Mirou-o com uma delicadeza pouco característica, parecia adorar aquele objecto.
A chuva começava a cair na rua, suavemente. Caía em pequenas lufadas, empurrada pelas massas de ar. Escurecia, e Tiago aproximou-se da janela aberta, com o olhar louco fixo no serrote, enquanto o acariciava.
O rosto de Margarida assaltava-o do seu poiso; exercia nele uma força incrível, inabalável, movendo-o na sua demanda.
Queria vingança. Queria matar a sede insaciável de provocar sofrimento. Queria voltar a sentir-se no domínio do poder. Queria atingir Margarida em cheio no seu ego, como fizera tantas vezes antes. Não tolerava ter sido ignorado e, após dois meses de calma que adormecia o ódio, não conseguiu mais manter adormecido o monstro que carregava consigo.
Chegara a hora.
Aproximou da sua pele o metal gelado e sentiu aqueles dentes de aço perfurarem-lhe a epiderme. A dor excruciante passou de axónio para axónio, destruindo-lhe os tecidos. Contudo, invadiu-o um prazer imenso, uma alegria tremenda, e riu. Soltou uma gargalhada tão profunda: o monstro tinha acordado.
E a campainha tocou. Tiago já delirava com a dor, sentia elevar-se para um outro patamar, mas o instinto incitou-o a parar. O sangue quente brotava-lhe dos pulsos, e um rasto de fluido foi deixado para trás. De pernas dormentes aproximou-se da porta, só instinto o movia, não estava nos seus planos deixar a tarefa pelo meio, mas tinha de abrir a porta; talvez do outro lado estivesse alguém que ele queria que o visse assim.
Estava certo. Quando, de vista esgazeada pelo sofrimento camuflado de prazer doentio, se deparou com a mulher do retrato, a euforia apoderou-se dele. Margarida gritou. Tiago voltou a rir. Margarida estava paralisada, sentia-se novamente subjugada. Tiago enfraquecia, as suas pernas vibravam, dos pulsos corria mais sangue, mas voltou a sentir-se o supremo senhor de Margarida.
A morte já não habitava em parte incerta. Agora, habitava nele. Morreu de sorriso nos lábios, deliciado por ter tido como última visão o pavor de Margarida estampado no seu rosto, como nos bons velhos tempos.

(escrito pela Ana Luísa (Anne), que aceitou o meu desafio e conseguiu finalizar, brilhantemente, na minha opinião, o suicídio do Tiago Marques. E assim morre esta história, de sorriso nos lábios. Obrigado Ana)

A solidão dos últimos


O autocarro rastejava pela noite, rompendo o seu silêncio chiando por todos os cantos, num som semelhante aos grilos que dançam pela escuridão fora. Quatro pessoas habitavam aquele pequeno universo, sem deixarem escapar uma pequena palavra, deixando-se absorver no espírito negro e lúgubre nocturno. Estes eram os últimos, os que ficavam para trás, os que tinham que suportar o frio, a escuridão, a ausência de uma gota pequena de bóemia ou alegria. Mas o mais dificil de tudo era suportar a solidão, o facto de estarem sentados num banco de autocarro sozinhos, mergulhados na mais profunda das reflexões. A Lua, vigilante, espreitava por trás da nuvens altas de Março, tentando dar um pouco de luz.

O condutor ligou o rádio, numa tentativa frívola de animar o ambiente. Surgiu uma doce voz feminina que cantava alegremente "We're walking on sunshine, oh oh, and I feel good!"


Sim, estávamos mesmo de acordo com Katrina and the Waves.

sábado, 1 de março de 2008

O Suicídio de Tiago Marques




Abriu a porta do poliban e saiu, de corpo e alma lavados de toda sujidade por onde tinha passado nas últimas horas. A casa de banho estava densamente enevoada, resultado de um duche de água quente de quarenta e cinco minutos. Tiago chegou-se ao espelho embaciado e com a mão direita, robusta, limpou-o, deixando a descoberto a sua cara hexagonal, os olhos negros redondos, os lábios carnudos e gretados e a barba curta que se extendia do queixo ao nariz.
Este era o rosto do ódio.
Secou o corpo lentamente. Tinha um físico bem constituído, notando-se uns peitorais e uns abdominais que, não sendo excessivos, tornavam Tiago um homem atraente.
Espalhou a espuma de barbear pelo rosto e pegou na lâmina. Com todo o cuidado, fê-la deslizar pela face, evitando a todo o custo cortar-se. Conseguia sentir os pêlos, curtos mas grossos, a separarem-se da pele violentamente. Irritava-o que fossem crescer outra vez, queria que morressem e não lhe enchessem de novo a cara de imperfeições. Lavou os restos da espuma e passou as mãos com After Shave pela cara. Num momento como este, não podia arriscar-se a ficar feio.
Fez o percurso até à sala nu. Quando estava em casa, nunca se vestia. Gostava de sentir-se natural, acreditava que estando desprovido de qualquer peça de roupa ficava em simbiose com a Natureza. Sempre fora assim, não era agora que ia mudar.
A primeira coisa para onde olhou quando chegou à sala foi para o enorme retrato que ocupava uma parede inteira. Era Margarida, de olhos verdes dirigidos para o chão, cabelo ruivo e liso, rosto ariano onde se notava claramente os dentes a morderem o lábio inferior. Daquele rosto radiava o medo. E Tiago sabia porquê. Durante noites a fio, obrigava-a a despir-se e a deitar o seu corpo sobre o dele, deixar que ele lhe puxasse os cabelos, que ele lhe mordesse o pescoço, que lhe arranhasse as costas e que a possuísse da maneira mais selvagem e primitiva, mas também mais natural. No meio de gritos de dor e desespero que ecoavam pela casa, os dois corpos não paravam, questionando a capacidade de resistência de um ser humano: ele conseguia penetrar-lhe o corpo por mais de três horas seguidas, beijando-a e mordiscando-lhe os primorosos seios, enquanto que ela se sentia morta logo depois dos primeiros 10 minutos, que costumavam ser da maior violência verbal, física e psicológica.
Margarida suportara tudo isto por mais de sete meses. Um dia, Tiago chegou e Margarida não estava. Deixara apenas um bilhete a dizer: "Não te abandonei, ainda te amo. Apenas preciso de tempo e de espaço para pensar. Tens estado a despedaçar-me e eu não sei se aguento. Espero que compreendas. Margarida"
Tinham passado dois meses e nem sinal dela. Tiago tinha aguardado com toda a calma, mantido a vida sexual suspensa desde a sua ida. No entanto, ela abandonou-o e chegara para ele o momento. Ela despedaçava-a. Olhou para o serrote em cima da mesa da sala. Agora, iria saber quem despedaçava quem.

(achei que não devia mexer mais nesta história, criou suspense suficiente para imaginarem o que irá acontecer na segunda parte. Essa segunda parte, fica ao vosso critério. Se quiserem dar uma opinião de como acabar este texto, não hesitem - pedro_msz@hotmail.com - porque não sou só eu a chover)