O caixão veio da morgue do hospital até à casa mortuária da igreja sozinho, apenas guiado pelo condutor do carro funerário que, por exigência da profissão, se apresentava de fato e gravata preta. Uma indumentária adequada para a ocasião, ainda que ignorasse quem seguia dentro da caixa de pinho que transportava.
O funeral tinha sido encomendado por uma voluntária do hospital, que acompanhara os últimos dias do cadáver. Infelizmente, ela não poderia estar presente na cerimónia, tinha coisas que fazer. E nós compreendemos, assistir ao enterrar de um caixão não é algo com que percamos o valioso tempo da nossa vida. O que é certo é que o caixão chegou, foi colocado pelo condutor do carro e pelo sacristão da igreja dentro da casa mortuária, foi aberto e assim ficou toda uma manhã. Tendo em conta que a igreja fica numa rua relativamente movimentada, é estranho o facto de ninguém ter tido a curiosidade de ver quem tinha morrido. O que não falta são transeuntes que, vagueando sem rumo pela melancolia das ruas escuras da cidade, viram à esquerda ou à direita consoante o interesse daquilo que lhes salta à vista. Mas não, nem dessas pobres criaturas este cadáver teve visitas. Durante quatro horas, apenas o sacristão e o motorista acompanharam aquele corpo que, ali deitado, olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito, esperava não se sabe bem o quê.
O silêncio que entre os dois homens se instalou logo após a abertura do caixão, tornou-se incómodo cerca de uma hora e meia depois. A conversa começou com o estado do tempo, estava muito frio embora não chovesse há mais de uma semana. Depois falaram dos desassossegos da profissão, quando o morto é obeso, quando os familiares não deixam que a urna se feche, quando o caixão é colocado quase ao pontapé para dentro do buraco. Já os dois falavam do treinador do Benfica e da arbitragem no último jogo do Sporting quando surgiu a primeira pessoa.
O homem, baixo, gordinho e calvo, entrou na casa mortuária bem devagar. Chocou por trazer uma camisola verde-alface, mas quem eram o sacristão e o motorista para o julgar, cada um celebra o luto como quer. Sem dizer uma palavra, chegou-se perto do caixão, olhou o morto, e deu alguns passos atrás. Puxou de uma cadeira, sentou-se e levou as mãos à cabeça.
A conversa sobre o futebol não continuou, de novo o silêncio voltou a sentar-se no trono, de onde não deveria ter saído nunca, dadas as circunstâncias. Só foi interrompido pelo motorista, a avisar que ia almoçar uma sandes que tinha trazido e que viria logo para que o sacristão também se pudesse alimentar. Depois de devorar que nem um animal a sandes de pasta de atum e ovo, voltou para a casa mortuária. Já lá estavam mais três pessoas.
Entre o regresso do motorista e a chegada do padre à casa mortuária, o movimento de gente era tão grande que o sacristão, espantado com tamanha lufa lufa que ali se passava, confessou que nunca vira tanta gente naquela salinha pequena. O costume é chegar, dar os pêsames, chorar, se a pessoa for mais próxima e ir embora. Neste caso, quem chegava não dava pêsames, alguns choravam mas ninguém ia embora. Pela altura de fechar o caixão e levá-lo para ser enterrado, a casa mortuária estava a abarrotar, já todos choravam: crianças, jovens, adultos, velhos, vestidos de preto, branco, azul, verde, encarnado. Agarravam-se uns aos outros, choravam em conjunto, e de tão embebidos na dor, ninguém olhou uma última vez para o rosto do morto antes de o caixão se fechar para sempre.
Quando tentaram levar o caixão para o cemitério, o motorista e o sacristão, munidos de um carrinho para levar a urna, deparam-se com uma multidão lacrimejante frente à casa mortuária. Gritos sinceros de dor ecoavam pelo ar gelado, centenas de lenços limpavam a mágoa e assoavam a tristeza. Era de longe o maior e mais penoso funeral que aquele padre já tinha testemunhado, e ele já contava com 47 anos de ordem. Para assistir ao enterro, as centenas de pessoas perdiam-se no labirinto de campas velhas e novas do cemitério. Levavam as mãos ao céu, abraçavam-se, puxavam os cabelos de tanto sofrimento. O caixão entrou sem problemas no seu respectivo buraco, e quando foi depositada a primeira pá de terra, a multidão enxugou as lágrimas e ordeiramente saiu do cemitério.
Soube-se depois que o morto, (homem ou mulher, novo ou velho, nunca saberemos) vivia só, não tinha nenhum membro da família vivo e não tinha amigos, só conhecidos a quem dirigia um cru e insosso "bom dia". Então, como explicar este enterro monumental, incrustado de dor e angústia?
Não foi pelo morto, garanto-vos eu. Não foi pelo morto que todas aquelas lágrimas foram derramadas, não foi pelo morto que todos aqueles gritos foram soltos, não foi pelo morto que aquela gente esperou horas ao frio para que o caixão fosse enterrado. A verdadeira razão de todo este drama, de toda esta paixão, foi o fim da quimera, o desaparecer do ilusão, a tomada de consciência do Homem de que a morte existe mesmo e atinge-nos a todos. E naquela tarde não se enterrou só um cadáver, mas também o engano da humanidade de que a vida dura para sempre.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
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