quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ensaio Sobre a Solidão

Estamos na altura do ano em que a tarde e a noite passam o testemunho uma à outra a horas que toda a gente acha escandalosas, desassete horas e a tarde arruma as suas tralhas e lá vai à sua vida, deixando a noite fazer-lhe o turno até perto das seis, altura em que a manhã lá aparece. Partimos desta análise das horas de sol para explicar ao estimado leitor o porquê do senhor Adolfo, que é este o nome da personagem de hoje, ainda estar a acabar de fazer as suas contas e já o céu está negro e a lua há muito que por lá reina. Não o tomemos por trabalhador massacrado de uma empresa de contabilidade, que isso é coisa que o senhor Adolfo não é. De facto, deve ser das primeiras pessoas a sair da empresa, quase todo o escritório ainda está embrenhado nas suas contas e ele já está a vestir o casaco para ir para casa. Ainda assim, o senhor Adolfo não o faz prepositadamente, é este o seu horário e ele nada mais faz que cumpri-lo. Não deixou trabalho por fazer, é até considerado um funcionário exemplar, o chefe tem sempre umas palavras simpáticas para com ele. É pena ser o único, para os outros colegas, não é inimigo, mas não passa de mais um engravatado que passa os dias agarrado a uma máquina de calcular e que come a sua sandes de lombo à secretária quando o rugido do estômago se torna mais incómodo. Além disso, o senhor Adolfo é ingénuo, acha que o silêncio dos outros é apenas uma demonstração do seu empenho, e quando sai do escritório, sorri para todos e ninguém lhe responde sem ser a estagiária gordinha que está lá para agradar a toda a gente.
O senhor Adolfo já vai a caminho de casa, vive num belo apartamento não muito longe do escritório, mas faz questão de exibir o seu automóvel, um fenomenal símbolo de prestígio e riqueza. Já chegou a casa, já pôs o carro na garagem, não quer mais nada sem ser um revigorante duche de água quente e sentar-se no sofá, com a mulher nos braços, a ver daqueles filmes de domingo à tarde. Mete a chave na fechadura com essa mesma intenção, mas em breve saberemos que não vai tomar duche nenhum, pelo menos não quando o espera tomar.
A casa está mergulhada na penumbra, a esposa do senhor Adolfo deve por lá andar a fazer coisas de dona de casa. Mas Adolfo não é daqueles de chegar a casa e gritar "Oh Maria" e não sei que mais, não, gosta de surpreender, é desses pequenos gestos que se faz o amor e o casamento. Apenas a luz do quarto estava acesa, mais nenhuma, a porta estava encostada e deixava passar um tracinho de luz que iluminava a mesma porção da parede. Pé ante pé, Adolfo, que já se descalçou quando entrou em casa, abre-a devagarinho, felizmente não é daquelas que grunhem. E o que encontra? Encontra a mulher, agarrada a outro que não ele, nus, a gemer e a gemer (o sexo vai sendo comum por estas chuvas), um apalpanço, o beijo, uma lambidela, coisas comuns entre amantes mas não entre casais, pelo menos presumimos isso pela cara do senhor Adolfo. Está ali, espantado, estarrecido, não diz nada, não faz nada, e aqueles dois continuam naquela vida como se não houvesse amanhã. O senhor Adolfo nem quer acreditar, vai para a casa de banho, puxa as calças para a baixo e senta-se na sanita, mesmo que não tenha grande vontade de cagar, desculpe-me o leitor o termo. Está ali para reflectir, qual Pensador de Rodin.
Vou matá-la, pensa ele, vou matá-la. E a ele, a ele também. Aos dois. Comprámos o faqueiro novo, deve ter uns belos utensílios, vamos fazer isto à moda antiga, tudo com as tripas de fora e tudo cheio de sangue, assim é que deve ser.
Quem conseguisse ler-lhe os pensamentos, diria, "Quem é este, o senhor Adolfo não é de certeza, aquele paz de alma contabilista não ia chafurdar os lençóis com estes pensamentos doentios, e matar a mulher, eles que se amam tanto. Nem pensar, não, o senhor Adolfo não é de certeza."
E não fogem muito à verdade se o pensarem assim. O senhor Adolfo não se vai armar agora em talhante, nem vai matar ninguém. De facto, vai só limpar o rabo, que nem sujo está, vestir as calças, arejar um pouco, deixar que o estranho que lhe habita a cama se vá embora e depois entrar em casa como se nada fosse, "atrasei-me um pouco no trabalho, estás tão linda hoje, vamos ver o Nothing Hill". E porquê? Como é capaz de aguentar assim uma traição, perdoando com um ânimo tão leve? A resposta é simples. Sem a mulher para o esperar quando chega a casa, o senhor Adolfo ficaria só. E a solidão caro leitor, é a coisa mais triste que há na vida.

(com a ajuda de Deus e do Zé)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A Vida É Uma Morte Continuada

-Estou a morrer, disse o homem sentado na cama, encharcado em suor. A mulher acordou com a agitação na cama, olhou para o relógio e virou-se para o homem.
-O quê?, perguntou-lhe com os olhos fechados.
-Estou a morrer, já te disse, respondeu-lhe ele.
-São quatro da manhã, páras de dizer baboseiras?
-Mas não é nenhuma baboseira, disse-lhe ofegante, estou mesmo a morrer.
-Se pensas que me levas a ter sexo com essas conversas, estás muito enganado. Importas-te de desligar a luz e voltar a dormir?
-Será que não percebes? Estou a morrer, no seu sentido mais verdadeiro, mais puro e literal, estou a morrer, a falecer, a bater as botas.
A mulher acendeu o seu candeeiro e sentou-se ao lado do homem que contemplava o infinito à sua frente de olhos esbugalhados.
-Tiveste algum pesadelo?
-Não, nem nenhum sonho, tenho a impressão de nunca ter estado a dormir.
-Mas eu bem te ouvi a ressonar.
-O que interessa é que cheguei à conclusão que estou a morrer.
-Deves estar com febre, estás completamente maluco.
-Não, não, não, disse o homem virando-se pela primeira vez para a mulher, parece-me a mim que estou mais lúcido que nunca.
-Não é sinónimo de lucidez acordar a meio da noite e dizer-se que se está a morrer, sabendo tu muito bem o resultado das análises da semana passada e que diziam que estava tudo bem.
-Não são as análises que me dizem isso, nem é preciso que nenhum médico ou especialista me venha dizer que estou a morrer, esse deveria ser um dado adquirido para o mundo inteiro.
-Estás a dizer-me que estou a morrer, eu também?
-Claro, não és mais que qualquer um.
-Que eu saiba, não tenho qualquer cancro ou doença que me esteja a matar.
-Mas estás a morrer.
-Ainda não sei porque me estou a dar ao trabalho de falar contigo.
-Escuta-me, a cada dia que passa, morres. Tu e qualquer outro ser que por cá habite. A partir do momento em que é gerado, o ser humano inicia uma contagem decrescente para o dia da sua morte. O Homem não vive, se é que me compreendes, o homem morre, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo, ganha uma ruga, dá um passo em frente para o abismo, caminha para os braços da morte, sempre prontos a acolher-nos.
-Cala-te, nada disso está a fazer sentido, estás a assustar-me.
-Mas não tens que te assustar, a morte é a coisa mais natural da vida, a sua existência é tão óbvia como o fogo ser quente, como a pedra ser dura, como a chuva ser molhada. Cheguei a esta conclusão, o homem não vive. O homem morre.
A mulher massajou as pálpebras, deixou-se ficar de olhos fechados a saborear o silêncio e disse.
-É sexo que queres?
O homem, já mais calmo, olhou-a e respondeu-lhe.
-Se a vida é uma via sacra tão efémera, para quê gastá-la a dormir?
E lá foram os dois, numa viagem pelas colchas e pelos lençóis, que em Novembro as noites são frias, a praticar um dos actos mais primitivos da natureza humana, estavam provavelmente a gerar vida para enganar a morte. Se gostaram ou não, não o saberemos. Pelo menos ela bem gemeu, mas diz o povo que a mulher é grande actriz nestas artes do sexo.

Dois dias depois, outro homem se levantou da cama pelas três da manhã e disse, como quem declarava uma verdade inquestionável:
-Estou a morrer.
Desta vez não havia ninguém ao seu lado. Voltou a deitar-se e adormeceu.

sábado, 15 de novembro de 2008

A Culpa da Bezerra

Hoje dei por mim a pensar em tudo e a pensar em nada, ou como o povo diz, a pensar na morte da bezerra, morte essa que deve ter sido algo de extraordinário para que toda a gente que esteja entregue aos seus próprios pensamentos esteja obrigatoriamente a pensar na pobre bezerra a morrer. Se foi assassinada, se foi doença, se foi velhice, se foi suícidio, pelo menos eu nunca saberei e duvido muito que algum dos leitores chegue a uma conclusão. O que posso afirmar com certeza é que esta visão de uma bezerra a bater as botas, a esticar o pernil, a ir para os anjinhos ou simplesmente morrer surge cada vez mais frequeentemente nos meus pensamentos, como se eu já não tivesse problemas que chegassem. A verdade é que não é o ser poeta que é uma infeliz característica do ser, mas sim pensar. Exacto, pensar, não comece o leitor já a insultar a minha pessoa e a perguntar-se o que está a fazer, a perder tempo, a ler deste tipo de barbaridades. De facto, uma das nossas capacidades mais desenvolvidas, que nos torna diferentes de todos os outros animais, foi a pior coisa que nos pode acontecer. Se fossemos todos metódicos, se fossemos todos escravos das ordens de um infeliz que pensou, se fossemos todos máquinas ignorantes e burras, éramos muito mais felizes. Bom homem era Salazar, que sabia que ao não apostar na educação e a manter a população analfabeta, iria tornar a ditosa pátria num Portugal mais feliz, pois não era ensinado a pensar. Mesmo assim, houve aqueles que gritaram "não há machado que corte a raiz ao pensamento", e com as suas falinhas mansas, acabaram por mostrar ao povo que pensar livremente era bom, tornando assim o ditador numa criatura incompreendida até hoje.
Tomemos hoje isto como uma verdade absoluta e inquestionável: pensar é mau, não nos faz bem nenhum. E porquê? Simplesmente porque pensar dói. Raciocinar demais provoca stress, vai buscar à memória, outra coisa que de bom não tem nada, os episódios mais infelizes da vida. Pensar, além de nos recordar o quão efémera é a nossa passagem pelo mundo dos vivos, é responsável por repensar o passado e tentar prever o futuro. E esse futuro, o que nos guarda? No meu caso, cheguei à conclusão que traz miséria, solidão e lágrimas. E se o leitor pensar um pouco, vai ver que o futuro não lhe vai ser diferente.
Cheguei então ao fim do dia com uma dor de cabeça abominável e um mau-estar digno do fim dos tempos. Mas que bezerra é esta que não lhe basta já ter morrido, ainda tem que provocar dor aos outros?

sábado, 20 de setembro de 2008

Bellevue ou O Monólogo do Assassino Sentimental (II)

Como sabem, não me considero o senhor da justiça e da moral. Mato por necessidade. Não “necessidade” no sentido do predador que mata porque precise de se alimentar mas “Necessidade” de me sentir completo. Pensando bem, talvez seja como o Amor, aquela necessidade tão nojenta e tão poética que a humanidade tem de encontrar um alguém que nos ache encantadores. Sim, talvez seja Amor. O desejo extremo, o idolatrar do som, do cheiro, da visão da Morte. Sentir a Vida a abandonar mais um corpo, a subir-me pelas mãos, a trepar lentamente pelos braços, eriçando todos os pelos pelo caminho, e a ir preencher mais um cantinho negro no pedaço de carvão que trago alojado no peito. Sim, sinto-me mais completo de cada vez que mato. Mas a plenitude que sinto pouco dura, rapidamente se esvai. Esgota-se a cada respirar, a cada piscar de olhos. E nessa altura, o meu corpo impele-me a matar.
Não penso em mais nada, não sinto mais nada, não quero saber de mais nada. Vou ao meu “livro de receitas”, o pequeno manual de capa de couro velho onde tenho guardado todas as vítimas e todas as formas de que já matei. Escolho uma receita, preparo os ingredientes (umas gramas de mistério, tantas outras de acção, uma pequena pitada de terror e violência q.b.) e limpo os utensílios e mais importante, preparo-me a mim, preparo o Orquestrador de tudo isto. De vez em quando, quando o sentimento de nostalgia lá aflora à pele, gosto de o ler e reler. De analisar as maneiras ingénuas e trapalhonas da adolescência, de rever o profundo semblante da Morte. Não faço por esconder os cadáveres das vítimas. Não sou médico legista, não é esse o meu trabalho. O meu trabalho é dar-lhes trabalho. Aos médicos, aos polícias…
Nunca fui apanhado, nunca fui questionado, nunca fui sequer mandado para pela polícia por excesso de velocidade. Quem me dera que me parassem e é claro que não vou ser eu a tentar parar-me a mim próprio. Não sou assim estúpido a esse ponto…
Mas olhem para o relógio… Queria tanto contar-vos mais coisas, dos que me marcaram mais, dos que me deram mais gozo… Mas o tempo voa e parece já ser tempo outra vez. Tempo de quê? De matar, ora.
[Z]

Como eu esperava, foram incontáveis os textos que me vieram parar às mãos. Incontáveis para quem não sabe contar até dois, mas ainda assim, foram dois textos bons. O escolhido foi o do Zé, que não se aproxima em nada da minha segunda parte, e ainda bem. Obrigado.
apetecememorrer.blogspot.com

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tchan Tchan Tchan Tchan

Mais uma vez, acho que a segunda parte de uma chuva minha não é suficientemente boa para ser publicada. Assim sendo, dou a oportunidade a um dos raros leitores que por aqui passam para dar continuidade a esta estória. Só têm que enviar o vosso texto para o e-mail pedro_msz@hotmail.com, não há cá apartados nem outras mariquices. A melhor (ou a única), será publicada aqui.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Bellevue ou O Monólogo do Assassino Sentimental (I)


Olá a todos. O meu nome, não o vão saber, por razões óbvias. O que vos importa saber é que sou aquilo a que os media gostam de chamar de assassino em série. Não é o nome que me define melhor, mas se tenho que ser reduzido a um estérotipo, lá terá que ser. Na verdade, sou bastante diferente dos outros assassinos em série. Não o faço por ter um trauma de infância, ou por ter um sentido de justiça mais apurado, ou por me achar omnipotente, divino, podendo decidir quando será o fim para determinada pessoa. Nada disso. Faço-o por necessidade, porque tem que ser. Há quem se sinta mal se não fumar um cigarro, ou se não beber um café, ou se não snifar umas gramas de coca. Eu sinto-me mal se não matar alguém. É um mau vicío, não o nego. E a minha avó que sempre me disse para não me meter nas drogas. Antes tivesse metido avó, antes tivesse metido.
Mas o meu impulso de matar escapa-se de novo de um estéreotipo. Este vício não é normal, pois quando mato alguém, não fico a sentir-me bem. Pelo contrário, fico a sentir-me pessimamente. Choro muito, puxo os cabelos e pergunto "porquê?" vinte vezes. Então, porque mato, se fico a sentir-me pessimamente? É tudo uma questão de relatividade. Se não mato, fico a sentir-me ainda pior.
Gostava de me lembrar da primeira vez. Sei que foi uma coisa acidental, com um míudo lá da escola. Não fui acusado de nada, mas uns meses depois tive uma série de sonhos macabros, um apetite pela morte. Matei uma galinha, um gato, um cão. Nada, os sonhos continuavam. Acabei por atropelar um velho com a mota dos meus pais. Atropelamento e fuga, ninguém suspeitou de nada. E foi assim que tudo começou, com a dependência a obrigar-me a matar em intervalos cada vez mais pequenos.
A escolha das minhas vítimas é, na maior parte das vezes, aleatória. Abro as páginas amarelas, passeio o meu indicador por uma folha qualquer e páro subitamente. O nome que estiver por baixo é o escolhido. Sondo o local uma ou duas vezes, para saber se há perigo. Se se advinharem as mínimas dificuldades, escolho outro nome rapidamente, não fico a estudar a pessoa, sabendo a que horas sai, a que horas entra, se sai, se entra, se como pizza, se tem filhos, se tem marido, se tem mulher, se tem amante. Neste caso, a ignorância é uma coisa boa. Fico sempre sem saber se estou a matar uma jóia de pessoa ou um filho da puta, embora queira sempre convencer-me da segunda hipótese.

(fim da primeira parte)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O Amor e o Tesão

A cidade já começava a ser batida pela luz da manhã outonal, melancólica e desprovida de fé, quando Ele acendeu o cigarro. Percorrendo com os olhos o panorama de tectos de prédios sujos e de antenas de TV ferrujentas, ia puxando a nicotina e o alcatrão e todas as porcarias que provocam cancro do pulmão e enfisemas e impotência, esquecendo-se das coisas boas, tornando aquele cigarro um dos mais desagradáveis dos seus 33 anos de existência. A idade era uma das duas coisas que tinha em comum com Cristo. A outra era a sua infinita compreensão pelas mulheres da vida, prostitutas, rameiras; não estando com meias palavras, putas. Tinha por elas a maior admiração e respeito, sendo ele um cliente assíduo dos seus serviços.
Desviou o olhar da paisagem funérea para contemplar uma dessas mulheres. Deitada na cama, os cabelos longos, mil corvos espalhados pelos lençóis, que lhe cobriam as pernas, deixando o tronco destapado, atentando as résteas de pudor que ainda haviam naquele quarto.
Meia dúzia de horas antes, via-a em toda a sua fulgência à espera no passeio, trapos mínusculos e provocantes salientando-lhe as curvas, as pernas nuas e compridas, os lábios garridos, o rosto reluzente, o expoente da sensualidade, o sexo em forma de gente, o produto final de um trabalho divino, destinado a satisfazer os prazeres da carne humanos.
Mas isto foi há seis horas atrás. Agora, depois do acto propriamente dito, depois de coberta de suor e esperma e pecado, tinha outro corpo. Ele olhou-a atentamente e não viu mais a "Vanessa, 30 anos, boas curvas", que tinha encontrado nos classificados. Viu apenas a Regina ou a Zulmira ou a Brunilde, pois Vanessa devia ser só o nome de profissão, de enormes cabelos oleosos, o rosto coberto de profundas rugas e cicatrizes, os lábios gretados pintados de um vermelho berrante, os seios excessivamete grandes, gordos, a pequena barriga que não notara antes, as mãos velhas e gastas, com unhas mal pintadas de um tom de castanho indestinto. Conseguiu identificar todos estes defeitos apenas da cintura para cima. Imaginem os leitores o que pensaria ele da cintura para baixo, provavelmente a zona do corpo mais usada pela Vanessa, que passava de um objecto de perdição a uma materialização do horrível, uma personificação do repugnante, um corpo que concentrava todo o nojo e todo o ódio presentes no Homem.
Desviou o olhar do terrível espétaculo que se apresentava deitado na cama, na sua cama, e voltou a contemplar a cidade a amanhecer em tons de laranja e castanho, enquanto acabava o penoso cigarro.
Ela, como que acordada pelo seu silêncioso mas profundo olhar, viu-o nu, fumando, olhando para o vazio que a janela proporcionava.
"O que estás a fazer?"
Ele apenas rodou a cabeça para a olhar de soslaio e voltou-se de novo para a janela.
"Anda para a cama, está-me a apetecer mais", repetiu.
De facto, não era a primeira que tinha gostado de fazer o seu trabalho com Ele. Todas gostavam muito e pediam sempre mais pela manhã.
Ele olhou de novo para ela e ela tratou de destapar o resto do corpo. A visão que ele teve, que ainda há poucas horas era de um paraíso anunciado, tornou-se putrefacta demais para uma descrição literária.
Em vez de lhe dirigir alguma palavra, saiu do quarto a passos largos, tentando desviar os olhos dela, deixando-a semi-erguida na cama, perplexa, até ao seu regresso, ainda nu, mas com as mãos atrás das costas, como se escondesse algo.
Ele, de olhar pesado e rosto sisudo, perguntou-lhe:
"Amas-me?"
E a Vanessa, temendo que uma resposta negativa lhe negasse mais movimentos pélvicos até ao próximo cliente, respondeu:
"Sim"
Ele deixou cair os braços de desalento, podendo agora ver-se o que escondia atrás das costas, uma pequena faca de cozinha.
"Ah, fodasse"
Dito isto, atirou-se para a cama e estripou-a violentamente, por entre gritos estridentes, fácilmente confundidos com orgasmos de mulheres mais sensíveis.
Acabado o trabalho, a cama estava agora coberta de sangue e vísceras, e sem sinais do corpo moribundo de Vanessa.
Afinal, quem foi que disse que o Amor dava tesão?