sexta-feira, 24 de abril de 2009

Súbita, uma angústia (parte I)

A carruagem do metropolitano, aproximando-se da última estação da sua linha, era ocupada por apenas quatro pessoas que, dispersadas pelos bancos sujos de plástico, respiravam a melancolia de um princípio de noite numa grande cidade. Enquanto penetrava os túneis negros da rede de metropolitano, várias luzes iluminavam-na de um branco chocante, conferindo-lhe um aspecto ainda menos confortável do que já era, não tendo pudor de aclarar a imundice do chão e das paredes, de um vermelho muito esbatido e riscado. A sua ruidosa cavalgada pelos carris era a banda sonora daquele cenário deprimente, abafando todos os outros sons existentes e tornando inaudível a voz metálica que anunciava as próximas estações.
Um dos passageiros era um homem de rosto jovem, com uma barba curta que não conseguia esconder a sua face marcada por ligeiras deformações. Sepultado num solene casaco negro, apresentava o tronco contraído, com os ombros junto ao queixo, numa postura de angustiosa inquietação, daquelas de que todo o mundo tem mas que guardamos só para nós como um segredo privado. No banco ao seu lado repousava um livro que, de capa creme e lisa, onde se viam pequenas letras castanhadas, se apresentava num estado ruinoso, com as páginas dobradas e desalinhadas do centro. Este passageiro ocupava um lugar imediatamente a seguir à porta, olhando fixamente para a sua frente, de olhar lívido e distante.
À sua frente estavam os restantes passageiros. Do seu lado direito, uma mulher de meia idade, barbaramente maquilhada em tons de verde e roxo, passava os olhos cansados pelas folhas de um jornal gratuito. O cabelo negro e sujo e as chinelas velhas e rotas mostravam que não era muito abastada; a saia lisa que vestia deixava mostrar as tíbias negras e porcas, manchadas aqui e ali de nódoas arroxeadas; os seus seios, enterrados por baixo de um casaco de malha, eram tão pouco salientes que lhe retiravam grande parte da sua femininidade. E embora a boca, pintada grotescamente de uma cor que está ainda para ser inventada, esboçasse um ténue sorriso quando lia a secção de anedotas de uma página do jornal, conseguíamos ler naquele rosto uma amargura profunda cuja origem nunca ficaremos a saber. Poderá ser fome, sede, luto, dor, solidão...são tantas as coisas que levam à mágoa da alma humana que por muito condolentes que sejamos, não as poderíamos escrever todas.
Os dois passageiros que sobram estavam uns bancos à frente do homem de que falámos primeiramente, e para ele estavam de frente. Dois adolescentes, na frescura da sua idade, estavam abraçados ternamente, ora encostando cândidamente os lábios ora perdendo-se os dois em longas endoscopias, tomando aquela carruagem como o ninho mais natural da sua intimidade, trocando murmúrios e risos silenciados pelo contínuo ruído da passagem pelos carris. Ela, sufocada por casacos e cachecóis, deixava vislumbrar a pele branca, pincelada por alguns sinais insignificantes, e os lábios, imaculados, puros como vieram ao mundo, pequenos e formosos, uma fonte onde o Homem não hesitaria em matar a sede. Ele, de barrete na cabeça, tão agasalhado como ela, deixava a descoberto a face trigueira, dona de uns olhos cristalinos e de um monumental sorriso, que mostrava sem vergonha os 30 dentes das suas mandíbulas.
Assim, no ar plástico daquela carruagem, a sisudez contrastava com o júbilo, numa luta desigual, não a nível de números, nem graças ao conhecimento elementar, adquirido nos filmes de animação infantis, de que o amor vence sempre. Neste caso, convém saber alguma coisa de matemática, pois mais por menos, dá menos e só Deus sabe como esta viagem vai acabar.
A voz feminina da gravação indicou o nome da penúltima estação. As luzes da carruagem pareciam mais intensas que nunca, como relâmpagos atirados por alguma divindade superior, enchendo aqueles bancos, aquele chão, aquelas portas de uma brancura ofensiva. Por entre a mistura nauseabunda de cheiros de transpiração, perfume barato, tabaco e mijo, a mulher que lia o jornal rugiu um assombroso e nojento bocejo. E enquanto a carruagem trovejava violentamente sobre os carris, o casal encostava as testas e o nariz, fechava os olhos e beijava-se tempestuosamente, numa cumplicidade troante e plena de escárnio e desprezo.
E súbita, uma angústia...

(continua)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A Memória, em papel

Já há algum tempo que não se escreve nada por aqui, mas não é que tenha decidido acabar com este espaço. É só resultado de um período mais negro da criatividade, espero que melhores tempos se avizinhem.
Entretanto, aproveito para avisar que pela primeira vez, um texto originalmente publicado neste blog será publicado noutro sítio. Não é esta nenhuma forma de valorização pessoal, tenho a que chegue, mas é só para esclarecer que o importante na escrita é a qualidade e a criatividade e não o tema escolhido. "A Memória" está presente na publicação escolar Acrobacias com a Palavras, um grande feito, dadas as suas características, que se aproximam de uma alegada "literatura pornográfica".

Em Abril, águas mil. Quem sabe...ainda hoje é dia 16.

domingo, 1 de março de 2009

Aparição Estival


Seria meio-dia, pouco mais que isso, quando arrastando o passo pela cidade, todo o meu corpo se petrificou. Do outro lado da rua, depois de descer uma breve escadaria, uma mulher imobilizara-se no último degrau antes do passeio, bronzeando-se no escaldante sol de Julho. Os seus pés, calçando um simples sapatos negros, balançavam no degrau. Mas todo o seu corpo era firme; as pernas fortes, porém elegantes, estavam praticamente a descoberto, apesar da saia do vestido translúcido lhe chegar aos joelhos. De facto, apesar de aparentar ser uma peça de vestuário bastante cândida, deixava ver a nudez das virilhas, e quando soprada pela leve brisa quente, até o sexo se fazia deslumbrar na penumbra. Um elegante chapéu de palha com fita preta tapava-lhe a cabeça, mas não o cabelo, de um ruivo crepitante que se desenrolava até aos ombros. O rosto era de uma palidez impressionante, quase fúnebre, onde contrastavam os lábios carnudos e garridos, implorando por um longo e grave beijo. Um dos braços apoiava-se num largo pilar que compunha a entrada do edifício, o outro repousava inocente atrás das costas. Mas o que mais se salientava por baixo do branco do vestido eram os seios, libertos e provocantes, incrivelmente firmes, de onde surgiam, lúbricos, os dois mamilos, envoltos na carne cor de tijolo do peito. Aquela figura ali, imóvel, tão clara e pura, num cenário ofensivamente branco despertou em mim tal volúpia, tal líbido, tal vontade bárbara de sujar aquela figura de mácula, tal vontade animalesca de lhe despedaçar o vestido e de explorar lascivamente todos os interstícios do seu corpo, ali mesmo, no passeio, sem pudor, um desejo de me perder no seu corpo, de voltar a ser criança de leite, de a possuír, inteiramente, à luz de um escaldante sol de Verão.
Tais pensamentos, pouco habituais na minha mente, tão vazia de malícia, levaram-me a atrevessar a rua, apenas olhando aquela figura deleitável, abstraindo-me de tudo o resto. Desconhecia eu de um carro que vinha da minha direita e que não teve tempo de travar aquando da minha passagem.
De mais, não me recordo. Acordei em cama de hospital, um milagre ter sobrevivido, disseram os médicos. Perguntei pela mulher, se me acudira, se me visitara durante o meu longo sono de duas semanas. Mas ninguém parecia saber do que estava a falar, o condutor do automóvel negou que estivesse alguém do outro lado da estrada, os transeuntes nada viram também. "Alguma alucinação que te deu com o calor", diziam uns; "isso foi tudo desejo acumulado, bem dizemos que precisas de uma mulher para te consolar", gracejavam outros. Está ainda hoje por explicar o mistério dessa mulher.
Quando saí finalmente à rua, já há muito o Verão terminara. Voltei ainda ao local, onde se tinha desvanecido toda a luxúria daquele dia. Segui com o meu passo melancólico e lento, deixando-me molhar por uma chuva fina que começara a cair, duvidando porém de ter ou não visto a silhueta de um peito feminino numa janela perto da escadaria...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Mistério...

Embrenhado na maior das melancolias, saiu de casa sem um rumo, sem um trajecto, sem um destino, como era aliás normal. Não saberia responder se lhe perguntassem por que ruas passara, por que edifícios, por que monumentos. O que via em cada passeio eram caras e essas nunca eram iguais. Era esse o seu objectivo, ver rostos, analisar faces, procurar em algum semblante desconhecido uma tristeza, um torpor agonizante, uma depressão vertigionosa maior que a sua, porque ao contrário do que o povo diz, quem vê caras vê corações, os músculos faciais não são mais que o prolongamento do miocárdio.
Mas afinal, foram poucos os transeuntes que por ele passaram. Pouco mais que um quarteirão, talvez seja o vento que se faz sentir que recolha as pessoas em casa, que as faça sofrer a vida em paz e sossego, lamentando as suas amarguras de robe vestido ou com uma manta por cima dos ombros, aquecendo as mãos numa fogueira crepitante. Das que viu, apenas uma mulher de bigode aparentava estar verdadeiramente triste, não se sabe se era pelo seu ar cansado ou pelo andar arrastado ou pela pequena gota que se formara no canto do olho direito.
Deu por si já muito longe de casa, uns bons cinco quilómetros, já a tarde adquiria os tons mais fúnebres e o sol dava as últimas, reduzindo-se a uma indistinta mancha alaranjada no horizonte. Olhou em redor e apercebeu-se que estava perdido. Estava numa rua pequena, de casas abastadas de fronte para um pequeno jardim público. Os candeeiros acendiam-se devagar, e do jardim, curiosamente denso para o centro da cidade, ouviam-se risos e gritos de crianças. O que dispensava naquele momento era assistir a um espetáculo de alegria humana, de felicidade gratuita, um acto de provocação perante os adeptos da tristeza, os seguidores da melancolia, os resignados com os infortúnios da vida funesta. Mas, como marioneta guiada por cordas desconhecidas, entrou pelo jardim dentro, desta vez com destino marcado, um grande clarão ruidoso que habitava o centro do parque. Sem trocar o seu passo triste e sonolento, explorou os caminhos sinuosos do jardim, qual Ícaro vidrado pelo sol. No entanto, as asas deste não derreteram, chegou ao seu destino salvo, porque são não estava nem ficou. O clarão barulhento não era mais que um pequeno carrossel, quase vazio, onde duas crianças trocavam de lugares num ápice, para fúria de uma idosa que gritava do lado de fora para parar tudo, antes que as crianças mudassem rapidamente da girafa para o elefante e depois, quem sabe, aventurar-se no condor. Ao ver aquele triste espetáculo, o nosso pobre personagem deu meia volta e retomou à escuridão do parque. Lembrou-se da sua infância e reflectiu sobre a sua condição. Depressa abrandou o passo e refugiou-se debaixo da copa de uma árvore pequena. De cócoras, pior posição para se ser dramático não há, limpou as lágrimas que se acumularam nas covas dos olhos e murmurou muito baixo, de maneira quase inaudível:
- Perdemos a infância e perdemos quase tudo. Só se ganham rugas e o maior mal dos nossos povos, o sentido de impossibilidade. Apenas na infância podemos cavalgar tanto um leão como uma abelha...
E posto fim a esta declamação para o silêncio, levantou-se firmemente e tirou o cinto das calças. Os ramos da arvore eram suficientemente altos e fortes.

No dia seguinte, um corpo de um enforcado era retirado do jardim, para gigantesco espanto de todos. As questões eram as mesmas em todas as bocas: Porquê, porquê, porquê? E a resposta diziam-na os velhos, com a sabedoria de uma vida amargurada:
- Mistério, pertubador mistério...

(a Mário de Sá-Carneiro, as minhas sinceras desculpas por ter arruinado uma ideia sua)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Enterro

O caixão veio da morgue do hospital até à casa mortuária da igreja sozinho, apenas guiado pelo condutor do carro funerário que, por exigência da profissão, se apresentava de fato e gravata preta. Uma indumentária adequada para a ocasião, ainda que ignorasse quem seguia dentro da caixa de pinho que transportava.
O funeral tinha sido encomendado por uma voluntária do hospital, que acompanhara os últimos dias do cadáver. Infelizmente, ela não poderia estar presente na cerimónia, tinha coisas que fazer. E nós compreendemos, assistir ao enterrar de um caixão não é algo com que percamos o valioso tempo da nossa vida. O que é certo é que o caixão chegou, foi colocado pelo condutor do carro e pelo sacristão da igreja dentro da casa mortuária, foi aberto e assim ficou toda uma manhã. Tendo em conta que a igreja fica numa rua relativamente movimentada, é estranho o facto de ninguém ter tido a curiosidade de ver quem tinha morrido. O que não falta são transeuntes que, vagueando sem rumo pela melancolia das ruas escuras da cidade, viram à esquerda ou à direita consoante o interesse daquilo que lhes salta à vista. Mas não, nem dessas pobres criaturas este cadáver teve visitas. Durante quatro horas, apenas o sacristão e o motorista acompanharam aquele corpo que, ali deitado, olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito, esperava não se sabe bem o quê.
O silêncio que entre os dois homens se instalou logo após a abertura do caixão, tornou-se incómodo cerca de uma hora e meia depois. A conversa começou com o estado do tempo, estava muito frio embora não chovesse há mais de uma semana. Depois falaram dos desassossegos da profissão, quando o morto é obeso, quando os familiares não deixam que a urna se feche, quando o caixão é colocado quase ao pontapé para dentro do buraco. Já os dois falavam do treinador do Benfica e da arbitragem no último jogo do Sporting quando surgiu a primeira pessoa.
O homem, baixo, gordinho e calvo, entrou na casa mortuária bem devagar. Chocou por trazer uma camisola verde-alface, mas quem eram o sacristão e o motorista para o julgar, cada um celebra o luto como quer. Sem dizer uma palavra, chegou-se perto do caixão, olhou o morto, e deu alguns passos atrás. Puxou de uma cadeira, sentou-se e levou as mãos à cabeça.
A conversa sobre o futebol não continuou, de novo o silêncio voltou a sentar-se no trono, de onde não deveria ter saído nunca, dadas as circunstâncias. Só foi interrompido pelo motorista, a avisar que ia almoçar uma sandes que tinha trazido e que viria logo para que o sacristão também se pudesse alimentar. Depois de devorar que nem um animal a sandes de pasta de atum e ovo, voltou para a casa mortuária. Já lá estavam mais três pessoas.
Entre o regresso do motorista e a chegada do padre à casa mortuária, o movimento de gente era tão grande que o sacristão, espantado com tamanha lufa lufa que ali se passava, confessou que nunca vira tanta gente naquela salinha pequena. O costume é chegar, dar os pêsames, chorar, se a pessoa for mais próxima e ir embora. Neste caso, quem chegava não dava pêsames, alguns choravam mas ninguém ia embora. Pela altura de fechar o caixão e levá-lo para ser enterrado, a casa mortuária estava a abarrotar, já todos choravam: crianças, jovens, adultos, velhos, vestidos de preto, branco, azul, verde, encarnado. Agarravam-se uns aos outros, choravam em conjunto, e de tão embebidos na dor, ninguém olhou uma última vez para o rosto do morto antes de o caixão se fechar para sempre.
Quando tentaram levar o caixão para o cemitério, o motorista e o sacristão, munidos de um carrinho para levar a urna, deparam-se com uma multidão lacrimejante frente à casa mortuária. Gritos sinceros de dor ecoavam pelo ar gelado, centenas de lenços limpavam a mágoa e assoavam a tristeza. Era de longe o maior e mais penoso funeral que aquele padre já tinha testemunhado, e ele já contava com 47 anos de ordem. Para assistir ao enterro, as centenas de pessoas perdiam-se no labirinto de campas velhas e novas do cemitério. Levavam as mãos ao céu, abraçavam-se, puxavam os cabelos de tanto sofrimento. O caixão entrou sem problemas no seu respectivo buraco, e quando foi depositada a primeira pá de terra, a multidão enxugou as lágrimas e ordeiramente saiu do cemitério.
Soube-se depois que o morto, (homem ou mulher, novo ou velho, nunca saberemos) vivia só, não tinha nenhum membro da família vivo e não tinha amigos, só conhecidos a quem dirigia um cru e insosso "bom dia". Então, como explicar este enterro monumental, incrustado de dor e angústia?
Não foi pelo morto, garanto-vos eu. Não foi pelo morto que todas aquelas lágrimas foram derramadas, não foi pelo morto que todos aqueles gritos foram soltos, não foi pelo morto que aquela gente esperou horas ao frio para que o caixão fosse enterrado. A verdadeira razão de todo este drama, de toda esta paixão, foi o fim da quimera, o desaparecer do ilusão, a tomada de consciência do Homem de que a morte existe mesmo e atinge-nos a todos. E naquela tarde não se enterrou só um cadáver, mas também o engano da humanidade de que a vida dura para sempre.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ensaio Sobre a Solidão

Estamos na altura do ano em que a tarde e a noite passam o testemunho uma à outra a horas que toda a gente acha escandalosas, desassete horas e a tarde arruma as suas tralhas e lá vai à sua vida, deixando a noite fazer-lhe o turno até perto das seis, altura em que a manhã lá aparece. Partimos desta análise das horas de sol para explicar ao estimado leitor o porquê do senhor Adolfo, que é este o nome da personagem de hoje, ainda estar a acabar de fazer as suas contas e já o céu está negro e a lua há muito que por lá reina. Não o tomemos por trabalhador massacrado de uma empresa de contabilidade, que isso é coisa que o senhor Adolfo não é. De facto, deve ser das primeiras pessoas a sair da empresa, quase todo o escritório ainda está embrenhado nas suas contas e ele já está a vestir o casaco para ir para casa. Ainda assim, o senhor Adolfo não o faz prepositadamente, é este o seu horário e ele nada mais faz que cumpri-lo. Não deixou trabalho por fazer, é até considerado um funcionário exemplar, o chefe tem sempre umas palavras simpáticas para com ele. É pena ser o único, para os outros colegas, não é inimigo, mas não passa de mais um engravatado que passa os dias agarrado a uma máquina de calcular e que come a sua sandes de lombo à secretária quando o rugido do estômago se torna mais incómodo. Além disso, o senhor Adolfo é ingénuo, acha que o silêncio dos outros é apenas uma demonstração do seu empenho, e quando sai do escritório, sorri para todos e ninguém lhe responde sem ser a estagiária gordinha que está lá para agradar a toda a gente.
O senhor Adolfo já vai a caminho de casa, vive num belo apartamento não muito longe do escritório, mas faz questão de exibir o seu automóvel, um fenomenal símbolo de prestígio e riqueza. Já chegou a casa, já pôs o carro na garagem, não quer mais nada sem ser um revigorante duche de água quente e sentar-se no sofá, com a mulher nos braços, a ver daqueles filmes de domingo à tarde. Mete a chave na fechadura com essa mesma intenção, mas em breve saberemos que não vai tomar duche nenhum, pelo menos não quando o espera tomar.
A casa está mergulhada na penumbra, a esposa do senhor Adolfo deve por lá andar a fazer coisas de dona de casa. Mas Adolfo não é daqueles de chegar a casa e gritar "Oh Maria" e não sei que mais, não, gosta de surpreender, é desses pequenos gestos que se faz o amor e o casamento. Apenas a luz do quarto estava acesa, mais nenhuma, a porta estava encostada e deixava passar um tracinho de luz que iluminava a mesma porção da parede. Pé ante pé, Adolfo, que já se descalçou quando entrou em casa, abre-a devagarinho, felizmente não é daquelas que grunhem. E o que encontra? Encontra a mulher, agarrada a outro que não ele, nus, a gemer e a gemer (o sexo vai sendo comum por estas chuvas), um apalpanço, o beijo, uma lambidela, coisas comuns entre amantes mas não entre casais, pelo menos presumimos isso pela cara do senhor Adolfo. Está ali, espantado, estarrecido, não diz nada, não faz nada, e aqueles dois continuam naquela vida como se não houvesse amanhã. O senhor Adolfo nem quer acreditar, vai para a casa de banho, puxa as calças para a baixo e senta-se na sanita, mesmo que não tenha grande vontade de cagar, desculpe-me o leitor o termo. Está ali para reflectir, qual Pensador de Rodin.
Vou matá-la, pensa ele, vou matá-la. E a ele, a ele também. Aos dois. Comprámos o faqueiro novo, deve ter uns belos utensílios, vamos fazer isto à moda antiga, tudo com as tripas de fora e tudo cheio de sangue, assim é que deve ser.
Quem conseguisse ler-lhe os pensamentos, diria, "Quem é este, o senhor Adolfo não é de certeza, aquele paz de alma contabilista não ia chafurdar os lençóis com estes pensamentos doentios, e matar a mulher, eles que se amam tanto. Nem pensar, não, o senhor Adolfo não é de certeza."
E não fogem muito à verdade se o pensarem assim. O senhor Adolfo não se vai armar agora em talhante, nem vai matar ninguém. De facto, vai só limpar o rabo, que nem sujo está, vestir as calças, arejar um pouco, deixar que o estranho que lhe habita a cama se vá embora e depois entrar em casa como se nada fosse, "atrasei-me um pouco no trabalho, estás tão linda hoje, vamos ver o Nothing Hill". E porquê? Como é capaz de aguentar assim uma traição, perdoando com um ânimo tão leve? A resposta é simples. Sem a mulher para o esperar quando chega a casa, o senhor Adolfo ficaria só. E a solidão caro leitor, é a coisa mais triste que há na vida.

(com a ajuda de Deus e do Zé)