sábado, 25 de abril de 2009

Súbita, uma angústia (parte II)

E súbita, uma angústia...
Uma angústia aflita, inquieta, que roçava o desespero. Nascera-lhe nas entranhas e com uma acidez brutal queimava-lhe todo o corpo, como uma doença maligna. Apoderava-se do seu sistema nervoso a um ritmo galopante, trazendo-lhe visões de sangue e ruína. Era àquele homem de barba curta, tão sereno no seu fúnebre casaco negro, que esta angústia vinha disturbar. E eram aqueles dois amantes, devorando-se à sua frente, à luz fria e pecadora das lâmpadas da carruagem, os responsáveis por tamanha amargura que se concebia no seu estômago. Os seus olhos, antes adormecidos pela indolência das horas melancólicas da vida, raivam agora um ódio furioso perante o espetáculo hediondo a que assistia gratuitamente.
O que o envolvia era uma pesada náusea, um nojo imenso daquilo que se fazia à sua frente: aquela sede sôfrega da libido no seu sentido mais animalesco, ali escondido por entre mordeduras e repugnantes trocas de humor, que navegava de língua para língua, de lábio para lábio, na mesma viscosidade horrenda que um pus execrável. Tudo isto ali, na banalidade de dois bancos do metro, atentando ao pudor da alma humana, que já tanto deve à moral e às boas maneiras.
A voz metálica, abafada pelo furioso cavalgar da carruagem, anunciava de novo a penúltima paragem. Naquele pequeno espaço vivia-se um clima de agitação, embora nenhum dos passageiros sequer esboçasse um movimento brusco. O homem, entregue à sua tempestuosa angústia, que o seu orgulho nega ser inveja e afirma ser desdém, fervilhava dentro do seu longo casaco. O seu rosto apresentava-se garrido e suado, fazendo-lhe uma irritante comichão na barba. Com uma das mãos, coçava-se nervosamente, não tirando os olhos dos amantes à sua frente; a outra permanecia num bolso do casaco, brincando com pequeno molho de chaves cortantes e aguçadas.
Enquanto a mulher ainda sorria olhando as imagens do jornal á sua frente, eufemizando a sua amargurada vida, o casal banhava-se no leito da inocência e da candura, num júbilo digno de uma solarenga manhã estival. No auge das suas ingenuidades, entregavam-se um ao outro epicamente, num hino à dilecção que os entrelaçava e unia: olhavam-se cumplicemente contemplando o seu pedaço de Éden, inalavam o aroma quente e macio do seu afecto, sussurravam palavras tolas de criança e riam em surdina, conscientes da asneira que ali perpetravam, mordiam-se embalados pela arrebatadora volúpia que os invadia...e provavam-se, matavam a sede um ao outro com o néctar mais simples e no entanto, mais valioso. E mesmo assim, entregando todos os seus sentidos àquele momento, duvidavam da sua realidade, acreditavam que tudo aquilo era uma distante utopia, uma quimera leda e triste que a fortuna não deixa durar muito.
Antes de chegarem à penúltima paragem, o homem levantou-se do seu banco num ímpeto. Agarrando-se a uma pega que descia do tecto da carruagem, permaneceu ali imóvel durante alguns segundos, não colhendo qualquer reacção dos outros passageiros: a mulher continuava a sorrir estupidamente, os amantes ainda se chafurdavam de mácula naquela espécie de prostíbulo. Tentando manter à custa o equilíbrio, o homem caminhou sinuosamente por entre os bancos até chegar perto dos jovens. Estes, alienados de tudo o que os rodeava, continuaram refugiados na sua intimidade, não ligando à figura que ali estava tão próxima. Então, numa vertigem, o homem empalideceu cadavericamente, os olhos inundaram-se de uma lividez fúnebre os músculos tornaram-se hirtos e gélidos. Após pigarrear gravemente, 0 casal interrompeu o que estava a fazer e olhou o homem pela primeira vez.
Ela não conteve o susto e soltou um surdo "Ah!", que acompanhou a sua expressão de horror. Ele, mantendo a face firme, sem expressão, mostrou a fraqueza no seu olhar titónico, que tremia de medo daquela figura defunta que se lhe apresentava. Ficaram assim alguns momentos, olhando-se e sem se mexerem, até a carruagem finalmente parar. Assim, guiado por uma violência colossal, o homem tirou as chaves do bolso do casaco e repentinamente cravou-as no pescoço moreno do rapaz. A rapariga explodiu num histerismo hiperbólico, batendo à janela e pedindo ajuda à estação deserta, enquanto o homem penetrava com as chaves cada vez mais no interior da gargante do jovem, fazendo esguichar o sangue furioso e infernal. Mal as portas se abriram, o homem, ainda dono de uma palidez assustadora, saiu rapidamente da carruagem, manchado do jorro de sangue que lhe correra para o casaco negro.
Entretanto, o jovem morria desamparado, vomitando sangue pela boca e pela garganta e a namorada, vendo-lhe o fim tão próximo, lavava-se naquele sangue, beijando-lhe o rosto e a boca, ficando ela imunda, ao mesmo tempo que ele, em violentos espasmos, perdia a vida aflitivamente.
Pouco antes das portas fecharem, a mulher dobrou o jornal e saiu da carruagem, sem olhara para trás. Subiu as escadas íngremes que davam acesso a uma larga praça com um monumental obelisco. Tudo naquela praça parecia embalado num gigantesco torpor, à luz da melanacólica luz crepuscular. Os rostos dos transeuntes estavam esculpidos com expressões de agonia e desolação. Apenas a mulher da carruagem, na sua extravagante máscara de maquilhagem, sorria, um sorriso sincero e forçado. Deu alguns passos ruidosos pelo passeio quando ouviu ao longe o grito de uma mulher.
Retirou o semblante feliz da cara e parou.
E súbita, uma angústia...

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