terça-feira, 1 de julho de 2008

Insónia


Não sou nada. Escravo cardíaco das estrelas, prisioneiro de uma cama onde o meu corpo jaz à luz da madrugada profunda. Não durmo nem me levanto, pois a lua ainda é ditadora das primeiras horas do dia. Apenas suo e deliro, esperando que o Sol rasgue o silêncio e o luto dos segundos que madrugam pela infinita linha do tempo.
O relógio não tique-taca, mas sinto os minutos a passar como punhais que me rompem a pele e me estripam a lucidez. A cada 60 segundos, um golpe aflinge cruelmente ora a memória, ora o raciocínio, lembrando-me que cada milésimo que passa é uma migalha de vida desperdiçada, é mais um passo para o eterno descanço da alma.
Mas o que digo eu? Não é a morte que me tira o sono, não. É a lascívia, a necessidade de satisfação através da bizarra coreografia do sexo, esse eterno abismo onde procuramos debalde o mais infímo sentimento de candura. Oh luxúria!, que não se mata com a inocente masturbação, que exige suor, que exige dor, que exige orgasmos que rompam a castidade da noite. Mas sem um corpo despido a meu lado, é impossível matar a fome e assim, conquistar o sono. Nefasto pecado, que me faz beber da perpétua fonte da loucura. Que me cessem todos os apetites carnais para que não perca a sobriedade imposta pela vida!
E que sabor é este que me chega à boca em tão funesta hora? Não é saliva, nem é sangue, nem é vómito. Ah, é a materialização da certeza de que o futuro é amanhã e que com ele traz a névoa, o total desconhecimento do capítulo seguinte. É o sabor das lágrimas, que me passam a acompanhar na travessia pelas cordilheiras da melancolia e da embriaguez da alma.
Mais um minuto, mais um golpe nas vísceras que me despedaça a já rarefeita parcimónia. Come chocolates, pequena, enquanto eu deslizo pelos lençóis, desprovido de fé, dilacerado pela tortura da insónia. O meu reino pela manhã estival! O meu reino pela banalidade e estupidez humanas! O meu reino por uma puta! O meu reino, que não é nenhum, pela total abstracção da tua pessoa. Porque sem o sono, o corpo vive, mas a alma morre moribunda e desfeita pela minha fatídica solidão.

9 comentários:

João Rodrigo disse...

"O relógio não tique-taca, mas sinto os minutos a passar como punhais que me rompem a pele e me estripam a lucidez." gostei

Meckib disse...

"Porque sem o sono, o corpo vive, mas a alma morre moribunda e desfeita pela minha fatídica solidão." isso sim gostei.

Rita disse...

"Não sou nada(...)Porque sem o sono, o corpo vive, mas a alma morre moribunda e desfeita pela minha fatídica solidão. " tudo isso sim gostei

UmJosé disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
UmJosé disse...

Diria o Rei Richard III:

"Um cavalo, um cavalo, O meu reino por um cavalo."

Hoje estou lento, mas esta apanhei ;)

gostei :)

Joana disse...

sempre com textos maravilhosos, oh anti-social :)

Olhos Verdes disse...

sou nova nisto, mas fiquei muito admirada com o teu talento. quem escreve assim é portugues!
parabens:)

Anónimo disse...

Funny.
Surpreendeste-me.
Bravo.

Pedro Pereira disse...

gostei. acho também pertinente avisar-te que tiveste uma distração em "descanço"