sexta-feira, 11 de abril de 2008

A Memória


Acordado bruscamente de um sono nefasto, ergo o meu corpo, flagelado pela demorada exposição às chicotadas contínuas de um mundo em queda livre. No espelho da cómoda já não vejo mais nada senão o Vulto, aquele que teima em seguir-me dia e noite sem libertar uma única palavra que tenha sido pensada. Mesmo com os olhos na penumbra, consigo distinguir a saliente caixa torácica, as mãos frias e esqueléticas, a boca morta, o rosto cadavérico e os olhos lívidos, resposta de um cérebro há muito defunto.
O venenífero sangue inflige terríveis dores nos restos de carne moribunda que me tapam os ossos.
Não tenho fome.
Não tenho sede.
Não tenho namorada, namorado, família, amigos. Não tenho qualquer interesse em qualquer objecto que seja idolatrado por milhões.
Então o que faz com que continue a levantar-me da cama fria todos os dias? O que me faz querer perpetuar a minha insignificante existência?
Nada, senão recordações. Vivo de saudades, são tudo o que me faz dar mais um passo, pedaços de uma vida que foi artificiosamente alegre. Sem elas, a única diferença entre mim e um cadáver seria a capacidade de mexer o maior músculo da anatomia humana.
Vou à janela. Se alguém vir este corpo nu e desfigurado do lado da rua, de certeza que se assusta. O céu tem a cor de um negro enganosamente eufemizado. Levo as mãos à cabeça e sinto os frágeis cabelos escaparem-me por entre os dedos. Fecho os olhos e só peço uma coisa. A quem, não sei, mas peço-o com a maior das fés e convicções.

Não apaguem a memória.

7 comentários:

Da Silva disse...

Nao me venhas para aqui dizer que nao tens familia.

Anónimo disse...

Magritte. Beirut. Miguel Claythorne.
Tripla perfeita.

Anne.

Joana disse...

mas este blog é mesmo teu?
bem, nem quero acreditar.

Joana disse...

está realmente muito bom. os textos estão lindos, e a música dá mesmo um certo ambiente ao blog. gostei muito :)

mel.e.drama disse...

Tens qualquer coisa, tu. Tem muita coisa o que escreves.
Entro aqui vazia e saio sempre preenchida.
Obrigada por estes bocadinhos.

UmJosé disse...

E o que temos nós para além da memória? Um punhado de objectos em valor, outras tantas folhas d'aquilo a que chamam dinheiro e umas coisas redondas que só fazem peso na carteira.

O preço da Vida é incalculável. Mas o da Memória é-o ainda mais.

[acho imensa piada às pessoas que não percebem que as outras pessoas não têm de escrever sobre elas próprias...]

(e depois sou eu que escrevo bem... pfff)

[Z~XIII]

Meckib disse...

mas se essa memória te causa repulsa porque não apagá-la?
não vale a pena viver algo com o qual nos sentimos vazios.
cria novas.
está lindíssimo