Com passos suspensos no silêncio da casa, os seus movimentos graciosos degeneravam na imundice da sua alma. Os seus olhos estavam vidrados no maldito objecto, e flashes das noites de amor louco, desregrado, passado longínquo que o fazia recordar (e acreditar) que já fora homem poderoso, que lançava os dados e fazia a sua jogada macabra, utilizando para o seu vício a virtuosidade inocente de Margarida, passavam-lhe qual rajada de ar.
Sentia-se destronado, mas o sentimento de poder regressou embrulhado numa torrente de emoções quando, finalmente, tomou posse do serrote. Os seus dedos fortes e insensíveis deslizaram pelo metal gelado; sentiu um arrepio desdenhoso trepar-lhe pelas costas acima. Era um apelo de coragem, o serrote gritava por ele, convidava-o a consumar a sua finalidade. Mirou-o com uma delicadeza pouco característica, parecia adorar aquele objecto.
A chuva começava a cair na rua, suavemente. Caía em pequenas lufadas, empurrada pelas massas de ar. Escurecia, e Tiago aproximou-se da janela aberta, com o olhar louco fixo no serrote, enquanto o acariciava.
O rosto de Margarida assaltava-o do seu poiso; exercia nele uma força incrível, inabalável, movendo-o na sua demanda.
Queria vingança. Queria matar a sede insaciável de provocar sofrimento. Queria voltar a sentir-se no domínio do poder. Queria atingir Margarida em cheio no seu ego, como fizera tantas vezes antes. Não tolerava ter sido ignorado e, após dois meses de calma que adormecia o ódio, não conseguiu mais manter adormecido o monstro que carregava consigo.
Chegara a hora.
Aproximou da sua pele o metal gelado e sentiu aqueles dentes de aço perfurarem-lhe a epiderme. A dor excruciante passou de axónio para axónio, destruindo-lhe os tecidos. Contudo, invadiu-o um prazer imenso, uma alegria tremenda, e riu. Soltou uma gargalhada tão profunda: o monstro tinha acordado.
E a campainha tocou. Tiago já delirava com a dor, sentia elevar-se para um outro patamar, mas o instinto incitou-o a parar. O sangue quente brotava-lhe dos pulsos, e um rasto de fluido foi deixado para trás. De pernas dormentes aproximou-se da porta, só instinto o movia, não estava nos seus planos deixar a tarefa pelo meio, mas tinha de abrir a porta; talvez do outro lado estivesse alguém que ele queria que o visse assim.
Estava certo. Quando, de vista esgazeada pelo sofrimento camuflado de prazer doentio, se deparou com a mulher do retrato, a euforia apoderou-se dele. Margarida gritou. Tiago voltou a rir. Margarida estava paralisada, sentia-se novamente subjugada. Tiago enfraquecia, as suas pernas vibravam, dos pulsos corria mais sangue, mas voltou a sentir-se o supremo senhor de Margarida.
A morte já não habitava em parte incerta. Agora, habitava nele. Morreu de sorriso nos lábios, deliciado por ter tido como última visão o pavor de Margarida estampado no seu rosto, como nos bons velhos tempos.
(escrito pela Ana Luísa (Anne), que aceitou o meu desafio e conseguiu finalizar, brilhantemente, na minha opinião, o suicídio do Tiago Marques. E assim morre esta história, de sorriso nos lábios. Obrigado Ana)
sábado, 8 de março de 2008
A solidão dos últimos

O autocarro rastejava pela noite, rompendo o seu silêncio chiando por todos os cantos, num som semelhante aos grilos que dançam pela escuridão fora. Quatro pessoas habitavam aquele pequeno universo, sem deixarem escapar uma pequena palavra, deixando-se absorver no espírito negro e lúgubre nocturno. Estes eram os últimos, os que ficavam para trás, os que tinham que suportar o frio, a escuridão, a ausência de uma gota pequena de bóemia ou alegria. Mas o mais dificil de tudo era suportar a solidão, o facto de estarem sentados num banco de autocarro sozinhos, mergulhados na mais profunda das reflexões. A Lua, vigilante, espreitava por trás da nuvens altas de Março, tentando dar um pouco de luz.
O condutor ligou o rádio, numa tentativa frívola de animar o ambiente. Surgiu uma doce voz feminina que cantava alegremente "We're walking on sunshine, oh oh, and I feel good!"
Sim, estávamos mesmo de acordo com Katrina and the Waves.
sábado, 1 de março de 2008
O Suicídio de Tiago Marques

Abriu a porta do poliban e saiu, de corpo e alma lavados de toda sujidade por onde tinha passado nas últimas horas. A casa de banho estava densamente enevoada, resultado de um duche de água quente de quarenta e cinco minutos. Tiago chegou-se ao espelho embaciado e com a mão direita, robusta, limpou-o, deixando a descoberto a sua cara hexagonal, os olhos negros redondos, os lábios carnudos e gretados e a barba curta que se extendia do queixo ao nariz.
Este era o rosto do ódio.
Secou o corpo lentamente. Tinha um físico bem constituído, notando-se uns peitorais e uns abdominais que, não sendo excessivos, tornavam Tiago um homem atraente.
Espalhou a espuma de barbear pelo rosto e pegou na lâmina. Com todo o cuidado, fê-la deslizar pela face, evitando a todo o custo cortar-se. Conseguia sentir os pêlos, curtos mas grossos, a separarem-se da pele violentamente. Irritava-o que fossem crescer outra vez, queria que morressem e não lhe enchessem de novo a cara de imperfeições. Lavou os restos da espuma e passou as mãos com After Shave pela cara. Num momento como este, não podia arriscar-se a ficar feio.
Fez o percurso até à sala nu. Quando estava em casa, nunca se vestia. Gostava de sentir-se natural, acreditava que estando desprovido de qualquer peça de roupa ficava em simbiose com a Natureza. Sempre fora assim, não era agora que ia mudar.
A primeira coisa para onde olhou quando chegou à sala foi para o enorme retrato que ocupava uma parede inteira. Era Margarida, de olhos verdes dirigidos para o chão, cabelo ruivo e liso, rosto ariano onde se notava claramente os dentes a morderem o lábio inferior. Daquele rosto radiava o medo. E Tiago sabia porquê. Durante noites a fio, obrigava-a a despir-se e a deitar o seu corpo sobre o dele, deixar que ele lhe puxasse os cabelos, que ele lhe mordesse o pescoço, que lhe arranhasse as costas e que a possuísse da maneira mais selvagem e primitiva, mas também mais natural. No meio de gritos de dor e desespero que ecoavam pela casa, os dois corpos não paravam, questionando a capacidade de resistência de um ser humano: ele conseguia penetrar-lhe o corpo por mais de três horas seguidas, beijando-a e mordiscando-lhe os primorosos seios, enquanto que ela se sentia morta logo depois dos primeiros 10 minutos, que costumavam ser da maior violência verbal, física e psicológica.
Margarida suportara tudo isto por mais de sete meses. Um dia, Tiago chegou e Margarida não estava. Deixara apenas um bilhete a dizer: "Não te abandonei, ainda te amo. Apenas preciso de tempo e de espaço para pensar. Tens estado a despedaçar-me e eu não sei se aguento. Espero que compreendas. Margarida"
Tinham passado dois meses e nem sinal dela. Tiago tinha aguardado com toda a calma, mantido a vida sexual suspensa desde a sua ida. No entanto, ela abandonou-o e chegara para ele o momento. Ela despedaçava-a. Olhou para o serrote em cima da mesa da sala. Agora, iria saber quem despedaçava quem.
(achei que não devia mexer mais nesta história, criou suspense suficiente para imaginarem o que irá acontecer na segunda parte. Essa segunda parte, fica ao vosso critério. Se quiserem dar uma opinião de como acabar este texto, não hesitem - pedro_msz@hotmail.com - porque não sou só eu a chover)
Este era o rosto do ódio.
Secou o corpo lentamente. Tinha um físico bem constituído, notando-se uns peitorais e uns abdominais que, não sendo excessivos, tornavam Tiago um homem atraente.
Espalhou a espuma de barbear pelo rosto e pegou na lâmina. Com todo o cuidado, fê-la deslizar pela face, evitando a todo o custo cortar-se. Conseguia sentir os pêlos, curtos mas grossos, a separarem-se da pele violentamente. Irritava-o que fossem crescer outra vez, queria que morressem e não lhe enchessem de novo a cara de imperfeições. Lavou os restos da espuma e passou as mãos com After Shave pela cara. Num momento como este, não podia arriscar-se a ficar feio.
Fez o percurso até à sala nu. Quando estava em casa, nunca se vestia. Gostava de sentir-se natural, acreditava que estando desprovido de qualquer peça de roupa ficava em simbiose com a Natureza. Sempre fora assim, não era agora que ia mudar.
A primeira coisa para onde olhou quando chegou à sala foi para o enorme retrato que ocupava uma parede inteira. Era Margarida, de olhos verdes dirigidos para o chão, cabelo ruivo e liso, rosto ariano onde se notava claramente os dentes a morderem o lábio inferior. Daquele rosto radiava o medo. E Tiago sabia porquê. Durante noites a fio, obrigava-a a despir-se e a deitar o seu corpo sobre o dele, deixar que ele lhe puxasse os cabelos, que ele lhe mordesse o pescoço, que lhe arranhasse as costas e que a possuísse da maneira mais selvagem e primitiva, mas também mais natural. No meio de gritos de dor e desespero que ecoavam pela casa, os dois corpos não paravam, questionando a capacidade de resistência de um ser humano: ele conseguia penetrar-lhe o corpo por mais de três horas seguidas, beijando-a e mordiscando-lhe os primorosos seios, enquanto que ela se sentia morta logo depois dos primeiros 10 minutos, que costumavam ser da maior violência verbal, física e psicológica.
Margarida suportara tudo isto por mais de sete meses. Um dia, Tiago chegou e Margarida não estava. Deixara apenas um bilhete a dizer: "Não te abandonei, ainda te amo. Apenas preciso de tempo e de espaço para pensar. Tens estado a despedaçar-me e eu não sei se aguento. Espero que compreendas. Margarida"
Tinham passado dois meses e nem sinal dela. Tiago tinha aguardado com toda a calma, mantido a vida sexual suspensa desde a sua ida. No entanto, ela abandonou-o e chegara para ele o momento. Ela despedaçava-a. Olhou para o serrote em cima da mesa da sala. Agora, iria saber quem despedaçava quem.
(achei que não devia mexer mais nesta história, criou suspense suficiente para imaginarem o que irá acontecer na segunda parte. Essa segunda parte, fica ao vosso critério. Se quiserem dar uma opinião de como acabar este texto, não hesitem - pedro_msz@hotmail.com - porque não sou só eu a chover)
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Os Amantes

A tarde já se alongava há quase cinco horas. E nessas cinco horas, coube um mundo de emoções: o nervosismo, o amor, a paixão, a loucura, o orgasmo mudo que rompeu a castidade do ar. Agora restava apenas o cansaço e o silêncio. Sobretudo o silêncio.
O relógio na parede salmão parara há meia hora, ou assim parecia. O ponteiro dos segundos fazia-se ouvir, mas vê-lo andar era impossível. Os outros ponteiros mantinham-se igualmente imóveis, podendo ver-se já uma aranha a preparar uma teia entre as sete horas e os 20 minutos. Mas o tempo passava, embora não houvesse provas disso. Naquele quarto, o tempo congelara ao som do prazer de dois corpos nus nutridos de prazer. Mas agora, restava apenas a sordidez, o cheiro a suor e a sémen e a fumo.
Ele olhava pela janela virada para a avenida. As lojas começavam a fechar, os carros encontravam-se numa fila imensa, as pessoas corriam como baratas pelos passeios. Era o fim do dia, tempo de regressar ao lar, tempo de ser pai, de ser mãe, de ser marido, de ser mulher, tempo de ser alguém para além da máscara do dia-a-dia. Tempo de existir.
- Tenho de ir para casa -, disse Ele sem tirar os olhos da avenida.
Ela não respondeu. Continuou a fumar o seu cigarro na cama, com o lençol a tapar-lhe os seios, que não sendo colossais, eram perfeitos. Nos seus olhos não havia mais o verde selvagem e explosivo, agora residia apenas o nevoeiro do medo e da incerteza. Passou a mão pelo cabelo loiro desgrenhado numa tentativa vã de o pentear. Mas esse gesto foi muito mais que isso, ou assim desejava. Queria que com uma breve passagem da mão pelo cabelo tirasse toda a hesitação e confusão presente na sua mente. Mas isso não acontecia, óbvio. A cada minuto que passava, a desordem no seu cérebro aumentava. Lembrava-se do gozo, dos rostos satisfeitos deitados lado a lado, da senhora da pensão que os olhava de maneira desconfiada, do marido e da filha. A sua mente era um furacão, era lava espessa a rebentar de um vulcão, era a fúria do mar a bater nas falésias. Transportou tudo isso para as palavras, que saíram mono-vocálicas e serenas:
- Estou grávida.
E se o tempo tinha congelado, agora o gelo quebrara. Ele não se mexeu, manteve os olhos no edificio em frente à pensão. Coçou o peito e olhou-a. Os seus olhos estavam inundados de culpa e pavor. Pegou na roupa que estava no chão e vestiu-se mecanicamente. Olhou-a de novo, o seu olhar mantinha-se.
- A minha mulher faz anos. Desculpa. -, e saiu.
Passaram 10 minutos desde que ela fechara a porta e Ela continuava na mesma posição, já sem o cigarro. E de um momento para o outro, toda a lava, todo o vento, toda a chuva quebrou a sua esfera que dividia a mente e o corpo. Chorou, chorou com lágrimas, gritos e ranho. E passadas 5 horas, o relógio da parede salmão moveu-se, mesmo nunca tendo estado parado.
sábado, 29 de dezembro de 2007
As Pombas
Desde o dia em que foste que voaram para fora daqui. Sentiram que não valia mais a pena viverem sem ti por perto. Ainda lhes ponho algum milho no chão, mas ele fica lá. É como se não gostassem de milho sem ser embalado pela tua mão velha e fria. Quem me dera ser como elas, fugir dos problemas. Quero criar asas, voar para longe, para ti. Estranho, choro tanto por ti nos lençóis mas ainda só te fui ver uma vez. Embala o milho, faz com que elas voltem. Quero vê-las no pátio, tontas, confusas, de um branco tão límpido como o cimento no chão. Fá-las voltar. Volta. Fazes-me falta avô, fazes-me falta.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Hoje não te vi em Oxford Street

Hoje, Oxford Street estava vazia, lojas fechadas, lixo que rastejava ruidosamente pela estrada. Vozes, não se ouvia nenhuma. Parecia que todos os londrinos tinham fugido para parte incerta. O céu estava ainda mais escuro do que o habitual, pronto a desfazer-se em gotas sobre o chão. O vento também soprava, exactamente na direcção contrária à minha, forte e frio. As mãos gelavam-me a cada passo que dava, o frio fazia-me vir as lágrimas aos olhos. Seria mesmo o frio?
Cheguei rapidamente a Oxford Circus, onde em tantas noites te encontrei, mala verde e casaco cinzento, a pentear o cabelo contra o vento, unica no meio de centenas de pessoas. Mas hoje, não estavas. Esperei 5, 10, 60 minutos. Gritei pelo teu nome, mas só o eco me respondeu. Andei de um lado para o outro da rua, nada. Senti chuva a escorrer pelo meu rosto abaixo, era chuva salgada e doía quando caía. Gritei, corri, puxei o cabelo de raiva. A chuva era cada vez mais forte e eu continuava no meio da rua deserta, à tua espera. Não aguentei mais, quis acordar. Nunca um sonho me pareceu tão real. Fui contra as paredes, belisquei-me. Continuei em Londres. Deitei-me na estrada de barriga para as nuvens. Tentei lembrar-me de ti, no meio da multidão, a sussurrares-me ao ouvido. Fechei os olhos, com a chuva a doer-me no corpo.
Acordei na minha cama, os lençois estavam gelados e eu, encharcado. O corpo está dorido, não tanto como o espirito.
Até me custa acreditar mas, hoje não te vi em Oxford Street.
Muah
domingo, 16 de dezembro de 2007

Quando te vais, o meu corpo entra num estado tão obscuro e tenebroso que palavras não o podem explicar. Por fora, choro rios e rio choros. Mas por dentro, é um fogo imenso que se apaga com a cruel força dos teus olhos. Não me olhes, não. Não me mates outra vez. Vai sem olhar para trás, pode ser que doa menos. Talvez. Mas sem ti vem o Inverno, o vento cortante que me despedaça a cara, o frio que me gela os ossos e me prende o cérebro, é o fim da Primavera que dá lugar à maior treva de todas: a tua ausência. Como pode Deus deixar que te vás, e deixar-me aqui sozinho? Conhecer-me-á ele assim tão mal para não ver a dilecção desmesurada que por ti nutro? De que me vale esconder a verdade? Sinto-me a morrer, lábios de escorbuto e mãos de lepra. Sinto-me cego, vendo o mundo à minha frente. Surdo, apenas ouvindo o eco da tua voz: “adeus”. Sinto-me mal e pequeno, e tudo isto acontece só, mas só, quando te vais.
Muah.
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