domingo, 17 de fevereiro de 2008

Os Amantes


A tarde já se alongava há quase cinco horas. E nessas cinco horas, coube um mundo de emoções: o nervosismo, o amor, a paixão, a loucura, o orgasmo mudo que rompeu a castidade do ar. Agora restava apenas o cansaço e o silêncio. Sobretudo o silêncio.

O relógio na parede salmão parara há meia hora, ou assim parecia. O ponteiro dos segundos fazia-se ouvir, mas vê-lo andar era impossível. Os outros ponteiros mantinham-se igualmente imóveis, podendo ver-se já uma aranha a preparar uma teia entre as sete horas e os 20 minutos. Mas o tempo passava, embora não houvesse provas disso. Naquele quarto, o tempo congelara ao som do prazer de dois corpos nus nutridos de prazer. Mas agora, restava apenas a sordidez, o cheiro a suor e a sémen e a fumo.

Ele olhava pela janela virada para a avenida. As lojas começavam a fechar, os carros encontravam-se numa fila imensa, as pessoas corriam como baratas pelos passeios. Era o fim do dia, tempo de regressar ao lar, tempo de ser pai, de ser mãe, de ser marido, de ser mulher, tempo de ser alguém para além da máscara do dia-a-dia. Tempo de existir.

- Tenho de ir para casa -, disse Ele sem tirar os olhos da avenida.

Ela não respondeu. Continuou a fumar o seu cigarro na cama, com o lençol a tapar-lhe os seios, que não sendo colossais, eram perfeitos. Nos seus olhos não havia mais o verde selvagem e explosivo, agora residia apenas o nevoeiro do medo e da incerteza. Passou a mão pelo cabelo loiro desgrenhado numa tentativa vã de o pentear. Mas esse gesto foi muito mais que isso, ou assim desejava. Queria que com uma breve passagem da mão pelo cabelo tirasse toda a hesitação e confusão presente na sua mente. Mas isso não acontecia, óbvio. A cada minuto que passava, a desordem no seu cérebro aumentava. Lembrava-se do gozo, dos rostos satisfeitos deitados lado a lado, da senhora da pensão que os olhava de maneira desconfiada, do marido e da filha. A sua mente era um furacão, era lava espessa a rebentar de um vulcão, era a fúria do mar a bater nas falésias. Transportou tudo isso para as palavras, que saíram mono-vocálicas e serenas:

- Estou grávida.

E se o tempo tinha congelado, agora o gelo quebrara. Ele não se mexeu, manteve os olhos no edificio em frente à pensão. Coçou o peito e olhou-a. Os seus olhos estavam inundados de culpa e pavor. Pegou na roupa que estava no chão e vestiu-se mecanicamente. Olhou-a de novo, o seu olhar mantinha-se.

- A minha mulher faz anos. Desculpa. -, e saiu.

Passaram 10 minutos desde que ela fechara a porta e Ela continuava na mesma posição, já sem o cigarro. E de um momento para o outro, toda a lava, todo o vento, toda a chuva quebrou a sua esfera que dividia a mente e o corpo. Chorou, chorou com lágrimas, gritos e ranho. E passadas 5 horas, o relógio da parede salmão moveu-se, mesmo nunca tendo estado parado.

sábado, 29 de dezembro de 2007

As Pombas


Desde o dia em que foste que voaram para fora daqui. Sentiram que não valia mais a pena viverem sem ti por perto. Ainda lhes ponho algum milho no chão, mas ele fica lá. É como se não gostassem de milho sem ser embalado pela tua mão velha e fria. Quem me dera ser como elas, fugir dos problemas. Quero criar asas, voar para longe, para ti. Estranho, choro tanto por ti nos lençóis mas ainda só te fui ver uma vez. Embala o milho, faz com que elas voltem. Quero vê-las no pátio, tontas, confusas, de um branco tão límpido como o cimento no chão. Fá-las voltar. Volta. Fazes-me falta avô, fazes-me falta.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Hoje não te vi em Oxford Street


Hoje, Oxford Street estava vazia, lojas fechadas, lixo que rastejava ruidosamente pela estrada. Vozes, não se ouvia nenhuma. Parecia que todos os londrinos tinham fugido para parte incerta. O céu estava ainda mais escuro do que o habitual, pronto a desfazer-se em gotas sobre o chão. O vento também soprava, exactamente na direcção contrária à minha, forte e frio. As mãos gelavam-me a cada passo que dava, o frio fazia-me vir as lágrimas aos olhos. Seria mesmo o frio?

Cheguei rapidamente a Oxford Circus, onde em tantas noites te encontrei, mala verde e casaco cinzento, a pentear o cabelo contra o vento, unica no meio de centenas de pessoas. Mas hoje, não estavas. Esperei 5, 10, 60 minutos. Gritei pelo teu nome, mas só o eco me respondeu. Andei de um lado para o outro da rua, nada. Senti chuva a escorrer pelo meu rosto abaixo, era chuva salgada e doía quando caía. Gritei, corri, puxei o cabelo de raiva. A chuva era cada vez mais forte e eu continuava no meio da rua deserta, à tua espera. Não aguentei mais, quis acordar. Nunca um sonho me pareceu tão real. Fui contra as paredes, belisquei-me. Continuei em Londres. Deitei-me na estrada de barriga para as nuvens. Tentei lembrar-me de ti, no meio da multidão, a sussurrares-me ao ouvido. Fechei os olhos, com a chuva a doer-me no corpo.

Acordei na minha cama, os lençois estavam gelados e eu, encharcado. O corpo está dorido, não tanto como o espirito.

Até me custa acreditar mas, hoje não te vi em Oxford Street.


Muah

domingo, 16 de dezembro de 2007


Quando te vais, o meu corpo entra num estado tão obscuro e tenebroso que palavras não o podem explicar. Por fora, choro rios e rio choros. Mas por dentro, é um fogo imenso que se apaga com a cruel força dos teus olhos. Não me olhes, não. Não me mates outra vez. Vai sem olhar para trás, pode ser que doa menos. Talvez. Mas sem ti vem o Inverno, o vento cortante que me despedaça a cara, o frio que me gela os ossos e me prende o cérebro, é o fim da Primavera que dá lugar à maior treva de todas: a tua ausência. Como pode Deus deixar que te vás, e deixar-me aqui sozinho? Conhecer-me-á ele assim tão mal para não ver a dilecção desmesurada que por ti nutro? De que me vale esconder a verdade? Sinto-me a morrer, lábios de escorbuto e mãos de lepra. Sinto-me cego, vendo o mundo à minha frente. Surdo, apenas ouvindo o eco da tua voz: “adeus”. Sinto-me mal e pequeno, e tudo isto acontece só, mas só, quando te vais.

Muah.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O princípio do fim

Que hoje chova pedra e se levantem tempestades. Que a terra trema e que das fontes jorre sangue. Que o Sol de cubra de vergonha e que a Lua fuja de horror.

Não, não foi Camões que nasceu. Fui eu que criei um blog.

Por aqui vão passar textos tão absurdos como o titulo deste hórrido espaço na Internet. Textos que vão causar as mais diversas sensações nos leitores, salientando o desespero, cólera, raiva e mágoa.

No entanto, estava destinado a acontecer. Na biblia dão-se os sinais do fim do mundo. Talvez este post seja um deles.

Se pensam que uso o disfemismo, estão enganados (as). Se Dante visse isto, mudava logo o seu Inferno por achar que era demasiado agradável.

Este é apenas um aviso. Se quiserem voltar aqui depois disto, não se esqueçam: foram avisados.

Muah