
A tarde já se alongava há quase cinco horas. E nessas cinco horas, coube um mundo de emoções: o nervosismo, o amor, a paixão, a loucura, o orgasmo mudo que rompeu a castidade do ar. Agora restava apenas o cansaço e o silêncio. Sobretudo o silêncio.
O relógio na parede salmão parara há meia hora, ou assim parecia. O ponteiro dos segundos fazia-se ouvir, mas vê-lo andar era impossível. Os outros ponteiros mantinham-se igualmente imóveis, podendo ver-se já uma aranha a preparar uma teia entre as sete horas e os 20 minutos. Mas o tempo passava, embora não houvesse provas disso. Naquele quarto, o tempo congelara ao som do prazer de dois corpos nus nutridos de prazer. Mas agora, restava apenas a sordidez, o cheiro a suor e a sémen e a fumo.
Ele olhava pela janela virada para a avenida. As lojas começavam a fechar, os carros encontravam-se numa fila imensa, as pessoas corriam como baratas pelos passeios. Era o fim do dia, tempo de regressar ao lar, tempo de ser pai, de ser mãe, de ser marido, de ser mulher, tempo de ser alguém para além da máscara do dia-a-dia. Tempo de existir.
- Tenho de ir para casa -, disse Ele sem tirar os olhos da avenida.
Ela não respondeu. Continuou a fumar o seu cigarro na cama, com o lençol a tapar-lhe os seios, que não sendo colossais, eram perfeitos. Nos seus olhos não havia mais o verde selvagem e explosivo, agora residia apenas o nevoeiro do medo e da incerteza. Passou a mão pelo cabelo loiro desgrenhado numa tentativa vã de o pentear. Mas esse gesto foi muito mais que isso, ou assim desejava. Queria que com uma breve passagem da mão pelo cabelo tirasse toda a hesitação e confusão presente na sua mente. Mas isso não acontecia, óbvio. A cada minuto que passava, a desordem no seu cérebro aumentava. Lembrava-se do gozo, dos rostos satisfeitos deitados lado a lado, da senhora da pensão que os olhava de maneira desconfiada, do marido e da filha. A sua mente era um furacão, era lava espessa a rebentar de um vulcão, era a fúria do mar a bater nas falésias. Transportou tudo isso para as palavras, que saíram mono-vocálicas e serenas:
- Estou grávida.
E se o tempo tinha congelado, agora o gelo quebrara. Ele não se mexeu, manteve os olhos no edificio em frente à pensão. Coçou o peito e olhou-a. Os seus olhos estavam inundados de culpa e pavor. Pegou na roupa que estava no chão e vestiu-se mecanicamente. Olhou-a de novo, o seu olhar mantinha-se.
- A minha mulher faz anos. Desculpa. -, e saiu.
Passaram 10 minutos desde que ela fechara a porta e Ela continuava na mesma posição, já sem o cigarro. E de um momento para o outro, toda a lava, todo o vento, toda a chuva quebrou a sua esfera que dividia a mente e o corpo. Chorou, chorou com lágrimas, gritos e ranho. E passadas 5 horas, o relógio da parede salmão moveu-se, mesmo nunca tendo estado parado.

