sábado, 15 de novembro de 2008

A Culpa da Bezerra

Hoje dei por mim a pensar em tudo e a pensar em nada, ou como o povo diz, a pensar na morte da bezerra, morte essa que deve ter sido algo de extraordinário para que toda a gente que esteja entregue aos seus próprios pensamentos esteja obrigatoriamente a pensar na pobre bezerra a morrer. Se foi assassinada, se foi doença, se foi velhice, se foi suícidio, pelo menos eu nunca saberei e duvido muito que algum dos leitores chegue a uma conclusão. O que posso afirmar com certeza é que esta visão de uma bezerra a bater as botas, a esticar o pernil, a ir para os anjinhos ou simplesmente morrer surge cada vez mais frequeentemente nos meus pensamentos, como se eu já não tivesse problemas que chegassem. A verdade é que não é o ser poeta que é uma infeliz característica do ser, mas sim pensar. Exacto, pensar, não comece o leitor já a insultar a minha pessoa e a perguntar-se o que está a fazer, a perder tempo, a ler deste tipo de barbaridades. De facto, uma das nossas capacidades mais desenvolvidas, que nos torna diferentes de todos os outros animais, foi a pior coisa que nos pode acontecer. Se fossemos todos metódicos, se fossemos todos escravos das ordens de um infeliz que pensou, se fossemos todos máquinas ignorantes e burras, éramos muito mais felizes. Bom homem era Salazar, que sabia que ao não apostar na educação e a manter a população analfabeta, iria tornar a ditosa pátria num Portugal mais feliz, pois não era ensinado a pensar. Mesmo assim, houve aqueles que gritaram "não há machado que corte a raiz ao pensamento", e com as suas falinhas mansas, acabaram por mostrar ao povo que pensar livremente era bom, tornando assim o ditador numa criatura incompreendida até hoje.
Tomemos hoje isto como uma verdade absoluta e inquestionável: pensar é mau, não nos faz bem nenhum. E porquê? Simplesmente porque pensar dói. Raciocinar demais provoca stress, vai buscar à memória, outra coisa que de bom não tem nada, os episódios mais infelizes da vida. Pensar, além de nos recordar o quão efémera é a nossa passagem pelo mundo dos vivos, é responsável por repensar o passado e tentar prever o futuro. E esse futuro, o que nos guarda? No meu caso, cheguei à conclusão que traz miséria, solidão e lágrimas. E se o leitor pensar um pouco, vai ver que o futuro não lhe vai ser diferente.
Cheguei então ao fim do dia com uma dor de cabeça abominável e um mau-estar digno do fim dos tempos. Mas que bezerra é esta que não lhe basta já ter morrido, ainda tem que provocar dor aos outros?

sábado, 20 de setembro de 2008

Bellevue ou O Monólogo do Assassino Sentimental (II)

Como sabem, não me considero o senhor da justiça e da moral. Mato por necessidade. Não “necessidade” no sentido do predador que mata porque precise de se alimentar mas “Necessidade” de me sentir completo. Pensando bem, talvez seja como o Amor, aquela necessidade tão nojenta e tão poética que a humanidade tem de encontrar um alguém que nos ache encantadores. Sim, talvez seja Amor. O desejo extremo, o idolatrar do som, do cheiro, da visão da Morte. Sentir a Vida a abandonar mais um corpo, a subir-me pelas mãos, a trepar lentamente pelos braços, eriçando todos os pelos pelo caminho, e a ir preencher mais um cantinho negro no pedaço de carvão que trago alojado no peito. Sim, sinto-me mais completo de cada vez que mato. Mas a plenitude que sinto pouco dura, rapidamente se esvai. Esgota-se a cada respirar, a cada piscar de olhos. E nessa altura, o meu corpo impele-me a matar.
Não penso em mais nada, não sinto mais nada, não quero saber de mais nada. Vou ao meu “livro de receitas”, o pequeno manual de capa de couro velho onde tenho guardado todas as vítimas e todas as formas de que já matei. Escolho uma receita, preparo os ingredientes (umas gramas de mistério, tantas outras de acção, uma pequena pitada de terror e violência q.b.) e limpo os utensílios e mais importante, preparo-me a mim, preparo o Orquestrador de tudo isto. De vez em quando, quando o sentimento de nostalgia lá aflora à pele, gosto de o ler e reler. De analisar as maneiras ingénuas e trapalhonas da adolescência, de rever o profundo semblante da Morte. Não faço por esconder os cadáveres das vítimas. Não sou médico legista, não é esse o meu trabalho. O meu trabalho é dar-lhes trabalho. Aos médicos, aos polícias…
Nunca fui apanhado, nunca fui questionado, nunca fui sequer mandado para pela polícia por excesso de velocidade. Quem me dera que me parassem e é claro que não vou ser eu a tentar parar-me a mim próprio. Não sou assim estúpido a esse ponto…
Mas olhem para o relógio… Queria tanto contar-vos mais coisas, dos que me marcaram mais, dos que me deram mais gozo… Mas o tempo voa e parece já ser tempo outra vez. Tempo de quê? De matar, ora.
[Z]

Como eu esperava, foram incontáveis os textos que me vieram parar às mãos. Incontáveis para quem não sabe contar até dois, mas ainda assim, foram dois textos bons. O escolhido foi o do Zé, que não se aproxima em nada da minha segunda parte, e ainda bem. Obrigado.
apetecememorrer.blogspot.com

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tchan Tchan Tchan Tchan

Mais uma vez, acho que a segunda parte de uma chuva minha não é suficientemente boa para ser publicada. Assim sendo, dou a oportunidade a um dos raros leitores que por aqui passam para dar continuidade a esta estória. Só têm que enviar o vosso texto para o e-mail pedro_msz@hotmail.com, não há cá apartados nem outras mariquices. A melhor (ou a única), será publicada aqui.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Bellevue ou O Monólogo do Assassino Sentimental (I)


Olá a todos. O meu nome, não o vão saber, por razões óbvias. O que vos importa saber é que sou aquilo a que os media gostam de chamar de assassino em série. Não é o nome que me define melhor, mas se tenho que ser reduzido a um estérotipo, lá terá que ser. Na verdade, sou bastante diferente dos outros assassinos em série. Não o faço por ter um trauma de infância, ou por ter um sentido de justiça mais apurado, ou por me achar omnipotente, divino, podendo decidir quando será o fim para determinada pessoa. Nada disso. Faço-o por necessidade, porque tem que ser. Há quem se sinta mal se não fumar um cigarro, ou se não beber um café, ou se não snifar umas gramas de coca. Eu sinto-me mal se não matar alguém. É um mau vicío, não o nego. E a minha avó que sempre me disse para não me meter nas drogas. Antes tivesse metido avó, antes tivesse metido.
Mas o meu impulso de matar escapa-se de novo de um estéreotipo. Este vício não é normal, pois quando mato alguém, não fico a sentir-me bem. Pelo contrário, fico a sentir-me pessimamente. Choro muito, puxo os cabelos e pergunto "porquê?" vinte vezes. Então, porque mato, se fico a sentir-me pessimamente? É tudo uma questão de relatividade. Se não mato, fico a sentir-me ainda pior.
Gostava de me lembrar da primeira vez. Sei que foi uma coisa acidental, com um míudo lá da escola. Não fui acusado de nada, mas uns meses depois tive uma série de sonhos macabros, um apetite pela morte. Matei uma galinha, um gato, um cão. Nada, os sonhos continuavam. Acabei por atropelar um velho com a mota dos meus pais. Atropelamento e fuga, ninguém suspeitou de nada. E foi assim que tudo começou, com a dependência a obrigar-me a matar em intervalos cada vez mais pequenos.
A escolha das minhas vítimas é, na maior parte das vezes, aleatória. Abro as páginas amarelas, passeio o meu indicador por uma folha qualquer e páro subitamente. O nome que estiver por baixo é o escolhido. Sondo o local uma ou duas vezes, para saber se há perigo. Se se advinharem as mínimas dificuldades, escolho outro nome rapidamente, não fico a estudar a pessoa, sabendo a que horas sai, a que horas entra, se sai, se entra, se como pizza, se tem filhos, se tem marido, se tem mulher, se tem amante. Neste caso, a ignorância é uma coisa boa. Fico sempre sem saber se estou a matar uma jóia de pessoa ou um filho da puta, embora queira sempre convencer-me da segunda hipótese.

(fim da primeira parte)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O Amor e o Tesão

A cidade já começava a ser batida pela luz da manhã outonal, melancólica e desprovida de fé, quando Ele acendeu o cigarro. Percorrendo com os olhos o panorama de tectos de prédios sujos e de antenas de TV ferrujentas, ia puxando a nicotina e o alcatrão e todas as porcarias que provocam cancro do pulmão e enfisemas e impotência, esquecendo-se das coisas boas, tornando aquele cigarro um dos mais desagradáveis dos seus 33 anos de existência. A idade era uma das duas coisas que tinha em comum com Cristo. A outra era a sua infinita compreensão pelas mulheres da vida, prostitutas, rameiras; não estando com meias palavras, putas. Tinha por elas a maior admiração e respeito, sendo ele um cliente assíduo dos seus serviços.
Desviou o olhar da paisagem funérea para contemplar uma dessas mulheres. Deitada na cama, os cabelos longos, mil corvos espalhados pelos lençóis, que lhe cobriam as pernas, deixando o tronco destapado, atentando as résteas de pudor que ainda haviam naquele quarto.
Meia dúzia de horas antes, via-a em toda a sua fulgência à espera no passeio, trapos mínusculos e provocantes salientando-lhe as curvas, as pernas nuas e compridas, os lábios garridos, o rosto reluzente, o expoente da sensualidade, o sexo em forma de gente, o produto final de um trabalho divino, destinado a satisfazer os prazeres da carne humanos.
Mas isto foi há seis horas atrás. Agora, depois do acto propriamente dito, depois de coberta de suor e esperma e pecado, tinha outro corpo. Ele olhou-a atentamente e não viu mais a "Vanessa, 30 anos, boas curvas", que tinha encontrado nos classificados. Viu apenas a Regina ou a Zulmira ou a Brunilde, pois Vanessa devia ser só o nome de profissão, de enormes cabelos oleosos, o rosto coberto de profundas rugas e cicatrizes, os lábios gretados pintados de um vermelho berrante, os seios excessivamete grandes, gordos, a pequena barriga que não notara antes, as mãos velhas e gastas, com unhas mal pintadas de um tom de castanho indestinto. Conseguiu identificar todos estes defeitos apenas da cintura para cima. Imaginem os leitores o que pensaria ele da cintura para baixo, provavelmente a zona do corpo mais usada pela Vanessa, que passava de um objecto de perdição a uma materialização do horrível, uma personificação do repugnante, um corpo que concentrava todo o nojo e todo o ódio presentes no Homem.
Desviou o olhar do terrível espétaculo que se apresentava deitado na cama, na sua cama, e voltou a contemplar a cidade a amanhecer em tons de laranja e castanho, enquanto acabava o penoso cigarro.
Ela, como que acordada pelo seu silêncioso mas profundo olhar, viu-o nu, fumando, olhando para o vazio que a janela proporcionava.
"O que estás a fazer?"
Ele apenas rodou a cabeça para a olhar de soslaio e voltou-se de novo para a janela.
"Anda para a cama, está-me a apetecer mais", repetiu.
De facto, não era a primeira que tinha gostado de fazer o seu trabalho com Ele. Todas gostavam muito e pediam sempre mais pela manhã.
Ele olhou de novo para ela e ela tratou de destapar o resto do corpo. A visão que ele teve, que ainda há poucas horas era de um paraíso anunciado, tornou-se putrefacta demais para uma descrição literária.
Em vez de lhe dirigir alguma palavra, saiu do quarto a passos largos, tentando desviar os olhos dela, deixando-a semi-erguida na cama, perplexa, até ao seu regresso, ainda nu, mas com as mãos atrás das costas, como se escondesse algo.
Ele, de olhar pesado e rosto sisudo, perguntou-lhe:
"Amas-me?"
E a Vanessa, temendo que uma resposta negativa lhe negasse mais movimentos pélvicos até ao próximo cliente, respondeu:
"Sim"
Ele deixou cair os braços de desalento, podendo agora ver-se o que escondia atrás das costas, uma pequena faca de cozinha.
"Ah, fodasse"
Dito isto, atirou-se para a cama e estripou-a violentamente, por entre gritos estridentes, fácilmente confundidos com orgasmos de mulheres mais sensíveis.
Acabado o trabalho, a cama estava agora coberta de sangue e vísceras, e sem sinais do corpo moribundo de Vanessa.
Afinal, quem foi que disse que o Amor dava tesão?

Pedro, lembrando

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, pedaço de carne, o único que me levou à estúpida manifestação de tristeza através dos olhos, que me levou a saborear o insípido sabor das lágrimas. Manhã das minhas noites, som dos meus silêncios, morte das minhas vãs esperanças de felicidade. Foste sal e foste açucar, tanto foste orgasmo de dor como de alegria. Nunca foste capaz de atribuir um nome ao que te nutria, fosse ódio ou amor...não, amor é muito pouco, dizias. E agora abandonas-me na ignorância sentimental da melhor ou da pior coisa que me aconteceu na vida: tu.
E agora, mais uma vez, o que resta são as memórias. Elas que me valham, porque só assim me consigo lembrar que és a maior certeza de que gosto de ti, até ao fim do mundo que me deste. *

(yac)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Insónia


Não sou nada. Escravo cardíaco das estrelas, prisioneiro de uma cama onde o meu corpo jaz à luz da madrugada profunda. Não durmo nem me levanto, pois a lua ainda é ditadora das primeiras horas do dia. Apenas suo e deliro, esperando que o Sol rasgue o silêncio e o luto dos segundos que madrugam pela infinita linha do tempo.
O relógio não tique-taca, mas sinto os minutos a passar como punhais que me rompem a pele e me estripam a lucidez. A cada 60 segundos, um golpe aflinge cruelmente ora a memória, ora o raciocínio, lembrando-me que cada milésimo que passa é uma migalha de vida desperdiçada, é mais um passo para o eterno descanço da alma.
Mas o que digo eu? Não é a morte que me tira o sono, não. É a lascívia, a necessidade de satisfação através da bizarra coreografia do sexo, esse eterno abismo onde procuramos debalde o mais infímo sentimento de candura. Oh luxúria!, que não se mata com a inocente masturbação, que exige suor, que exige dor, que exige orgasmos que rompam a castidade da noite. Mas sem um corpo despido a meu lado, é impossível matar a fome e assim, conquistar o sono. Nefasto pecado, que me faz beber da perpétua fonte da loucura. Que me cessem todos os apetites carnais para que não perca a sobriedade imposta pela vida!
E que sabor é este que me chega à boca em tão funesta hora? Não é saliva, nem é sangue, nem é vómito. Ah, é a materialização da certeza de que o futuro é amanhã e que com ele traz a névoa, o total desconhecimento do capítulo seguinte. É o sabor das lágrimas, que me passam a acompanhar na travessia pelas cordilheiras da melancolia e da embriaguez da alma.
Mais um minuto, mais um golpe nas vísceras que me despedaça a já rarefeita parcimónia. Come chocolates, pequena, enquanto eu deslizo pelos lençóis, desprovido de fé, dilacerado pela tortura da insónia. O meu reino pela manhã estival! O meu reino pela banalidade e estupidez humanas! O meu reino por uma puta! O meu reino, que não é nenhum, pela total abstracção da tua pessoa. Porque sem o sono, o corpo vive, mas a alma morre moribunda e desfeita pela minha fatídica solidão.